Publicado por: Conselheiro Fnord | 03/12/2015

MUNDO DISCORDIANISTA: Fui usado por Deus


Em 2013, na Sexta-feira Santa que antecede o Domingo de Páscoa, eu havia passado um alegre e longo dia em família na casa de uma das minhas tias preferidas. A morte de Jesus Cristo, de acordo com a tradição cristã daquele feriado, simboliza o perdão divino sobre os pecados da humanidade. O sangue de Cristo fora derramado na cruz do Calvário por sua culpa, minha culpa. Deus, o criador de todo o Universo, disposto a conceder sua misericórdia para salvar milhões de vidas pecaminosas, não teve outra escolha senão enviar o seu único filho para ser torturado e morto em nosso lugar. Esta é a maior demonstração de amor que alguém seria capaz de imaginar: permitir que o próprio filho seja abatido feito um animal e exibido em público como um pedaço de carne pendurada no açougue.

Porém, era estranho como eu não me sentia espiritualmente envolvido nisso. Talvez porque a minha namorada viera de muito longe para me encontrar, e pensar no sacrifício do nazareno era incompatível com as fantasias eróticas que tínhamos em mente (a sexta-feira pode até ser santa, mas eu não). No final da tarde, quando os últimos raios de sol formavam uma penumbra agradável, meus pais e a minha avó septuagenária, junto com minha namorada e eu, decidimos voltar para casa.

Optando por um atalho, tivemos que atravessar uma rua estreita onde um automóvel branco estava posicionado de modo irregular, obstruindo a nossa passagem. Meu pai, que já estava levemente inebriado pelo vinho, desceu do carro e saiu à procura do proprietário do veículo mal estacionado. A situação começou a ficar embaraçosa quando um homem, de feição grosseira e com um bafo de cachaça que teria asfixiado até o próprio demônio, disse em tom arrogante que, se meu pai não conseguia passar com o carro, que ele mesmo o faria. É claro que eu não permiti que um estranho sentasse a bunda no banco do motorista e fizesse alguma barbeiragem, assustando a minha avó que estava no carona.

Pedi em tom sério que ele não ousasse invadir o carro e tomasse distância de mim. A essa altura, minha mãe já havia acionado uma viatura policial e, para intimidar o bêbado problemático, desembolsou seu distintivo da Polícia Civil. Inesperadamente, como se eu tivesse sido atraído por um imã, dei um soco potente no sujeito, e senti uma dose de prazer ao vê-lo perder o equilíbrio e tombar. A mulher que me trouxe ao mundo nada fez além de exibir sua carteira de identificação policial, quando foi covardemente agredida pelo ogro. Eu poderia ter me transformado no Incrível Hulk, mas me concentrei para não piorar as coisas fazendo mais do que agir em defesa de quem me deu à luz. Entretanto, aquele dia teria um trágico desfecho se eu não tivesse enfrentado a cólera do meu pai. Quando me dei conta, ele já havia sacado a pistola que trazia consigo, e foi então que Deus me usou…

Pude impedir que o ogro problemático recebesse uns furos no corpo. A trilha sonora formada pela algazarra da vizinhança e pelos gritos de desespero da minha namorada não parava de tocar. Mesmo assim, fiz de mim uma muralha à frente do meu pai e dei um prazo para que o homem fugisse em seu veículo cantando pneu. “Você foi usado por Deus”, disse minha mãe emocionada. Ouvi a mesma frase centenas de vezes. Deus fez de mim um instrumento, e eu estava prestes a aceitar a missão de servi-lo daquele dia em diante, convencido da providência divina. Fui investido de algum poder sobrenatural, e fiz uso dele para cumprir o meu dever de preservar a reputação da minha família, a profissão de meus pais e a vida de um estranho.

Mas o Diabo não ficou contente ao perceber que eu seria um recruta a menos em seu exército. Afinal, ser usado por Deus significa impedir o assassinato de um homem? Significa fazer a coisa certa? Como Deus se atreve a reivindicar para si uma atitude que me pertence e que assumi como sendo da minha inteira responsabilidade? Passaram-se os dias e a fé em mim nutrida deu lugar ao mistério e à incerteza. Logo criei coragem para questionar os propósitos do Criador e só então descobri que não nasci para ser guiado por um ventríloquo.

Comer o fruto proibido me deu a chance de conhecer o bem e o mal, e uma vez que você descobre que as virtudes humanas não provêm de divindades, anjos ou demônios, o retorno ao antigo estado de escravidão se torna a vergonha da nossa espécie.

Ricardo Silas

Sou um livre pensador, ateu (cético). Faço estudos sobre o anarco-comunismo e as revoluções históricas. Sou reformista gradual em questões políticas. Aprendi a nunca ser um espectador da injustiça e da estupidez: o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio.

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2015/12/fui-usado-por-deus/

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