Publicado por: Conselheiro Fnord | 17/11/2015

MUNDO DISCORDIANISTA: Religião e seus dilemas insustentáveis


Da Bíblia e do Corão se extraem mensagens de amor e ódio, de guerra e paz, de luz e trevas, de sabedoria e ignorância. Sempre que algum fanático religioso busca uma aprovação imediata para suas práticas criminosas, são aos livros sagrados que eles recorrem. É permitido a qualquer ser humano apedrejar e enforcar adúlteras, decapitar apóstatas, acender fogueiras contra hereges, perseguir homossexuais e imolar a genitália de recém-nascidos, contanto que haja um pretexto sobrenatural que sirva de justificativa. A serenidade do “ama a teu próximo” e a estupidez do dogmatismo estão inscritos no mesmo cardápio das escolhas que os crentes podem fazer.

A versão mais pacífica do islã, por exemplo, repudia as facções islâmicas que infligem a pessoas inocentes um terror implacável. No mundo cristão, evangélicos e católicos já erguem as bandeiras que defendem a laicidade do Estado e a causa dos homossexuais, em contraponto aos homofóbicos e teocratas que semeiam a ignorância e a desgraça por onde passam. Quando defendem o islamismo como uma religião de paz, os muçulmanos são, ao mesmo tempo, corajosos e ridiculamente covardes. Corajosos porque arriscam a própria segurança ao condenarem a fábrica de ódio, destruição e pânico que são as vertentes mais radicais do islamismo, e covardes porque jamais condenariam, com a mesma intensidade, os trechos do Corão que disseminam a guerra e o massacre dos infiéis.

Quando um mártir enche seu corpo de explosivos e os detona em meio à multidão, seu único desejo é satisfazer a vontade de Alá, posteriormente desfrutando de suas 72 virgens no paraíso; quando Salman Rushdie escreveu Os Versos Satânicos, foi decretada uma fatwa para que a sua pena de morte fosse cumprida; quando os jihadistas invadiram o jornal francês Charlie Hebdo e aniquilaram os cartunistas ali presentes, eles acreditavam estar obedecendo ordens do profeta Muhammad. Nada disso é invenção de terroristas e conspiradores da fé islâmica, e sim parte dos ensinamentos corânicos do hadith e da lei de sharia que, do ponto de vista religioso e histórico, precisam ser executados até que este mundo decaído seja conquistado para a honra e glória de Alá.

Precisamos descobrir quantos islâmicos diriam ao Criador do Universo que o Corão, além de brevemente servir como um manual de paz, é também um manifesto anti-humano de malvadezas: “Sobre os incrédulos, que morrem na incredulidade, cairá a maldição de Deus, dos anjos e de toda a humanidade, e essa maldição pesará sobre eles eternamente. O castigo não lhes será atenuado, nem lhes será dado alívio algum” (2, 161-2); “A luta é obrigatória para vós, ainda que vós a repudieis. Pois é possível que repudieis algo que seja bom para vós, e talvez vos agrade algo que vos é prejudicial” (2, 216). E, para finalizar: “aqueles que negarem a revelação de Deus sofrerão severo castigo; pois Deus é poderoso, e vingador” (2, 272).

Embora os muçulmanos sejam moderados e sinceros ao renegarem o terrorismo, eles continuam covardes ao não contestarem as ordens supremas do seu deus. Absolutamente o mesmo desprezo dado aos cruéis e desumanos terroristas cabe também a Alá. Ainda que a Bíblia e o Corão contenham certa erudição e nos prestigiem com alguns sábios provérbios, nenhum deles é capaz de provar que os preceitos divinos não são moralmente problemáticos, vacilantes e contraditórios. Há mais de dois mil anos, Platão descreveu, em um de seus memoráveis diálogos, uma indagação que Sócrates fez ao jovem Eutífron: o piedoso é amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque é amado pelos deuses? Chegou a hora de romper o nosso pacto com os deuses e buscar uma solução racional para os nossos dilemas.

Ricardo Silas

Sou um livre pensador, ateu (cético). Faço estudos sobre o anarco-comunismo e as revoluções históricas. Sou reformista gradual em questões políticas. Aprendi a nunca ser um espectador da injustiça e da estupidez: o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio.

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2015/11/religiao-e-seus-dilemas-insustentaveis/

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