Publicado por: Conselheiro Fnord | 15/07/2014

MUNDO DISCORDIANISTA – 2 Textos: Crianças e a Educação Humanista e Doutrinação: um grande mal


Pais e mães sempre querem o que julgam melhor a seus filhos: querem introduzi-los aos valores que julgam adequados e ao conhecimento que julgam verdadeiro. Pais que professam alguma fé educam seus filhos dentro das premissas de sua fé, pais ateus criam seus filhos dentro das premissas de seu ateísmo e pais humanistas criam seus filhos dentro das premissas do Humanismo. Apesar de a influência familiar ser de grande importância para o futuro de uma criança em relação a suas crenças e valores, também as amizades, escolas, círculos sociais e idiossincrasias são decisivas para o desenvolvimento de uma crença ou não crença.

A Escola exerce um grande papel na educação moral e nos valores de uma criança não só por ser a responsável pelo ensino de conteúdo, mas também por lhes proporcionar contato diário e duradouro com diferentes pessoas e seus valores morais. Historicamente a Escola sempre teve íntima ligação à religião, sendo os religiosos, por muito tempo, os mais educados e também os responsáveis pela educação das pessoas comuns. Até hoje escolas religiosas oferecem aos pais um ambiente favorável à educação religiosa de seus filhos mesclando o conteúdo educacional aos dogmas que estes desejam que seus filhos interiorizem. As escolas de um estado laico deveriam ser laicas. Entretanto as escolas reproduzem a sociedade e, como ela, acabam por enviesar e privilegiar algumas crenças em detrimento de outras. No Brasil as escolas são muito ligadas à religião católica participando muitas vezes das atividades da igreja católica da comunidade, entoando preces e músicas católicas em seu dia-a-dia, festejando festas católicas, dependurando símbolos católicos nas paredes, enfocando a religião católica em suas aulas de Ensino Religioso, permitindo que a religião se infiltre sorrateiramente em outras disciplinas e ensinando diariamente as crianças através de uma perspectiva, discurso e valores católicos.

Os pais humanistas, preocupados com a educação de seus filhos, debatem o melhor modo de incluir na educação das crianças valores e ideais humanistas. Muitos pais humanistas solicitam à escola que libere seus filhos das aulas de Ensino Religioso assim como das atividades de cunho religioso que possam existir no calendário escolar. Outros pais humanistas acreditam que dessa forma estarão segregando seus filhos e causando danos a estes por se sentirem excluídos ou diferentes dos demais colegas. Para contrabalancear a influência da escola na crença dos pequenos, muitos pais humanistas em vários países fundaram grupos regionais de ensino humanista. Alguns desses grupos estão elencados nos sites Parents Beyond Belief e nos diversos Secular Family Network. Os grupos locais se encontram com determinada frequência e promovem atividades baseadas em valores humanistas para seus filhos assim como discutem os objetivos da educação humanista e os temas a serem debatidos com crianças e adolescentes de cada faixa etária. Entretanto, geralmente tais grupos existem somente em grandes cidades e se torna impraticável a participação de pais humanistas e suas crianças que moram em cidades menores. Pensando nisto vários grupos humanistas propuseram o ensino humanista em casa e muitas associações humanistas disponibilizaram materiais em seus sites para auxiliar os pais nessa tarefa, como o The Secular Parents, o próprio Parents Beyond Belief, o British Humanists que possui o website Humanism for schools para o ensino de humanismo em escolas ou grupos humanistas, o Humanist learning lab do grupo humanista da cidade de Harward, o Kids without God da American Humanist Association, a própria American Humanist Association com sua seção Humanist Parenting, entre outros. Blogs de pais humanistas relatando suas experiências com seus filhos aumentam na internet, alguns exemplos são o Raising Freethinkers e o Atheist Mom. Uma, ainda pequena, literatura especializada já pode ser encontrada, dentre ela, livros para pais humanistas como Humanism for parents, Parents beyond Belief e Raising Freethinkers (que não tem ligação com o blog homônimo) e literatura infanto-juvenil com temas humanistas, como por exemplo, esta lista sugerida pela American Humanist Association.

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Capa do Livro Raising Freethinkers (Educando livre-pensadores)

Na Alemanha, creches humanistas filiadas ao Humanistischer Verband Deutschlands (Sociedade Humanista da Alemanha) podem ser encontradas em dez cidades e aceitam crianças de todos os credos, não credos e filosofias. A sociedade humanista alemã também conseguiu que em vez do tradicional Ensino Religioso nas escolas de Berlim, Brandeburgo e Baviera, fosse oferecida aos alunos uma disciplina intitulada Lebenskunde (assuntos/habilidades para a vida) que trata de ética, moral, igualdade e tolerância. A sociedade humanista alemã ainda luta para que a disciplina Lebenskunde seja oferecida em outros estados alemães. A primeira escola humanista alemã foi fundada em 2008 em Fürth, Baviera, oferecendo às crianças tratamento igualitário e individualizado dentro dos valores humanistas e lecionando em vez de Ensino Religioso a disciplina Lebenskunde. A sociedade humanista alemã planeja fundar outras escolas humanistas em outros estados alemães. O Kochhar Humanist Education Center da American Humanist Association foi fundado em 2008 e em 2011 lançou o manual Establishing Humanist Education Programs for Children, um guia para fomentar a elaboração de programas de educação humanistas para crianças, sugerindo importantes pontos para serem discutidos antes e durante a implementação desses cursos assim como propondo um currículo baseado na idade das crianças e adolescentes, sua maturidade e seus assuntos de interesse.

Educação humanista não seria doutrinar crianças?

Antes desse tópico, sugiro a leitura do texto do Eli Vieira no Bule Voador sobre o perigo de se doutrinar crianças em qualquer dogma.

William Lane Craig em seu texto Humanism for Children, sugere que o ensino humanista não encoraja as crianças a pensarem criticamente as perguntas difíceis sobre a justificação do próprio Humanismo incentivando-as a pensar criticamente sobre vários temas, porém a serem acríticas com o próprio Humanismo. Ou seja, doutrinando. A meu ver essa doutrinação, caso viesse a existir, partiria muito mais do modo como o Humanismo pode ser repassado às crianças pelos educadores (professores, pais, comunidade) do que de sua filosofia em si.

A verdadeira educação humanista é incompatível com a doutrinação.

A educação humanista é baseada nos manifestos humanistas e seus valores máximos são a crítica e o pensamento livre. Inclusive todos os manifestos começam afirmando que não são um dogma e que os humanistas devem continuar sempre pensando. A educação humanista busca ensinar as crianças e adolescentes a pensarem, criticarem e refletirem e não faz sentido doutrinar crianças em um dogma ateu simplesmente. Crianças não são crentes e nem ateus. São ainda muito jovens para serem rotuladas e muito imaturas para se classificarem.

A educação humanista é um processo, uma ferramenta, que ensina a basear a moral na própria humanidade e não em algo sobrenatural, que estimula a pensar criticamente e a agir segundo lógica, ética e fraternidade. A educação humanista, de forma alguma, pode dizer às crianças que devem pensar desta ou daquela forma. Os jovens devem ser encorajados naturalmente a pensar por si só e a conhecerem o que seus pais, sua comunidade e as demais pessoas pensam, respeitando todos os credos e religiões. Devem ser capazes de refletirem e criticarem todos os assuntos, inclusive a própria filosofia humanista.

Dessa forma, a educação humanista é impraticável dentro da educação tradicional de transferência de saberes. Doutrinar é fácil quando se espera que as crianças se lembrem das palavras de seus professores e as repitam de forma correta nas provas, sem refletir, raciocinar ou deduzi-las. Porém, ensinar a pensar é livrar uma mente de muitas armadilhas da doutrinação. Caso o objetivo seja ensinar estudantes a pensar, uma educação doutrinária e de transferência de saberes é totalmente ineficaz (exemplos não faltam). A educação humanista necessita de toda uma nova concepção de educação, na qual se ensine a aprender, se incentive a descobrir o mundo e se valorize a curiosidade e a criatividade.

O site kids without God foi alvo de muitas críticas por parte de setores religiosos, muito talvez por culpa do nome do site. O nome do site afirma algo sobre as crianças que não deveria ser afirmado: que são ateus. Crianças ainda são muito novas e só podem tomar tal rótulo quando tiverem maturidade suficiente para assim se identificarem. Adolescentes possuem maior compreensão do mundo e senso crítico e possuem maturidade suficiente para assim se designarem, tanto que, muitos ateus se declararam ateus durante a adolescência. Mas crianças não. Portanto, creio que o nome foi um pouco infeliz apesar do conteúdo do site, pelo menos em sua parte infantil, ser composto por jogos, vídeos e experimentos que tratam de ciência e valores éticos e não tocam no assunto deus diretamente.

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Darwin, o cachorrinho do site Kids without God que ensina moral. Texto: Darwin sabe que fazer todas essas coisas ["essas coisas" se refere às demais lições éticas da série] é a melhor maneira de ter muitos amigos e se sentir satisfeito todos os dias. Ajude os outros! Eu prometo que ajudarei aqueles que estão tristes ou nervosos sendo um bom amigo para eles.

Mas deve-se falar ou não da existência/inexistência de deus para crianças? O que não se deve fazer é educá-las em um dogma ateu ou estaríamos fazendo o mesmo que os religiosos só que ao contrário. Não deve ser ensinado às crianças o que pensar, mas sim como pensar. Pais ateus gnósticos ou ateus agnósticos podem e devem dizer a seus filhos sua visão de mundo, mas sempre os instigando a refletir e não a aceita-la com cega convicção. Obviamente, como todo grupo de pessoas, humanistas não são todos iguais e muito do material disponível nos sites e blogs anexados acima podem ser mais enviesados. Cabe aos humanistas refletirem sobre a essência da educação humanista, estuda-la e rever sempre seus objetivos para não caírem em doutrinação.

Obviamente as crianças são influenciadas pelo pensamento de seus pais, como também são influenciadas pelo pensamento de amigos e professores. Há relatos de muitas crianças de famílias humanistas que se declaram acreditar em deus durante fase escolar ou outras que se declaram não acreditar. Crianças não gostam de serem diferentes e sentem necessidade de serem como seus amigos ou como seus familiares para se sentirem aceitas em seus círculos sociais. O que os pais devem fazer é deixar a criança passar por tais experiências naturalmente e incentivá-la a pensar e refletir.

A falta de conhecimento e compreensão sobre o Humanismo Secular nas escolas muitas vezes excluem crianças de famílias humanistas durante aulas de Ensino Religioso ou outras atividades escolares e levam-nas a se sentirem diferentes e segregadas. Por isso algumas sociedades humanistas estão trabalhando para incluir o Humanismo Secular em aulas de Ensino Religioso como uma visão ou filosofia de vida. O ensino do humanismo nas aulas de religião atenderia a alunos humanistas incluindo-os, diminuiria o preconceito e falta de compreensão com crianças e adolescentes de famílias humanistas, mostraria às demais crianças que existe moral sem religião e proporcionaria um interessante panorama sobre religião e moral para as aulas. Inclusive, todas as religiões devem ser incluídas e contempladas caso o Ensino Religioso insista em sobreviver como disciplina escolar e um maior enfoque ético e pluricultural devem ser dados a estas aulas. Crianças de religiões indígenas e afro-brasileiras sofrem muito preconceito e segregação e devem ser incluídas e respeitadas. Ensinar humanismo nas aulas de Ensino Religioso não é tornar todos os alunos humanistas e sequer concede ao humanismo o status de religião. Muitas pessoas criticam o Humanismo Secular por se dizer religião ou não religião quando melhor lhe diz respeito e muitos usam a tentativa de inclui-lo nas escolas como exemplo desta incoerência e desonestidade intelectual, mas o Humanismo Secular não passa a ser religião somente por ser estudado em aulas de Ensino Religioso como uma alternativa moral não religiosa a moral religiosa.

Como ter contato com a educação humanista no Brasil?

Aos pais humanistas brasileiros existem as alternativas de se organizarem em grupos regionais ou ensinarem humanismo em casa a suas crianças. Obviamente a educação em casa não deve ser descartada com a criação de um grupo específico, pois é em casa no dia-a-dia que as crianças aprendem e se desenvolvem. A educação é veiculada à vida e aos afazeres diários e deles inseparável. Cabe aos pais humanistas estudarem muito e se preocuparem em ler e em refletir sobre a melhor maneira de educar seus filhos dentro de uma educação humanista. Os sites que anexei são bons caminhos iniciais, mas infelizmente todo o material está em inglês. Além disso, os pais devem zelar sempre pela laicidade das escolas (aconselho visitarem o site Observatório da Laicidade na Educação) e também pela inclusão e pelo respeito a todas as crianças da escola e cobrarem por aulas de Ética e Moral em vez das tradicionais aulas de Religião.

Ester de Oliveira

Interessada em Evolução, ciência em geral, educação e sociedade. Bióloga, mestre em entomologia e atualmente doutoranda em Zoologia. Escreve também para o Evolucionismo.org e o BioSubverso

FONTE:

http://www.bulevoador.com.br/2014/03/criancas-e-educacao-humanista/

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