Publicado por: Conselheiro Fnord | 16/06/2014

MUNDO DISCORDIANISTA: DROGAS E O SENTIDO DA VIDA…


PARTE I

Tudo que fazemos é pelo propósito de alterar a consciência. Formamos amizades para que possamos sentir certas emoções, como amor, e evitar outras, como solidão. Ingerimos alimentos específicos para desfrutarmos da sua presença em nossas línguas. Lemos pelo prazer que pensar os pensamentos de outra pessoa. A cada momento despertos e até em nossos sonhos , lutamos para direcionar o fluxo de sensações, emoções e cognição a estados de consciência que valorizamos.

Drogas são um caminho a mais em direção a esse fim. Algumas são ilegais; algumas são estigmatizadas; algumas são perigosas embora, perversamente, estes conjuntos se interseccionem apenas parcialmente. Algumas drogas de extraordinários poder e utilidade, tais como a psilocibina (o composto ativo nos cogumelos mágicos) e a dietilamida do ácido lisérgico (LSD), não apresentam nenhum risco aparente de vício e são fisicamente bem-toleradas, e mesmo assim um indivíduo pode ainda ser mandado para a prisão por causa do seu uso enquanto drogas como o tabaco e o álcool, que têm arruinado vidas além da conta, são desfrutadas ad libitum em quase toda sociedade na face da Terra. Há outros pontos neste continuum: O MDMA, ou Ecstasy, têm um potencial terapêutico extraordinário, mas também é suscetível ao abuso, e algumas evidências sugerem que pode ser neurotóxico.[1]

Uma das maiores responsabilidades que temos como uma sociedade é educar a nós mesmos, juntamente com a próxima geração, a respeito de quais substâncias vale e não vale a pena ingerir e por que propósito. No entanto, o problema é que referimos a todo composto biologicamente ativo por um único termo, drogas, tornando quase impossível ter uma discussão inteligente a respeito das questões psicológicas, médicas, éticas e legais em torno do seu uso. A pobreza da nossa linguagem foi apenas levemente amenizada pela introdução do termo psicodélicos para diferenciar certos compostos visionários, que podem produzir insights extraordinários, de narcóticos a outros clássicos agentes de estupefação e abuso.

No entanto, não devíamos ser tão rápidos em sentir nostalgia pela contracultura dos anos 1960. Sim, avanço cruciais foram feitos, social e psicologicamente, e as drogas foram centrais para o processo, mas só precisamos ler relatos da época, tais como Slouching Towards Bethlehem de Joan Didion, para ver o problema com uma sociedade inclinada ao arrebatamento a qualquer custo. Para cada insight de valor duradouro produzido pelas drogas, houve um exército de zumbis com flores nos cabelos patinando na direção do fracasso e do arrependimento. Se ligar, sintonizar e desencanar é algo sábio, ou até benigno, somente se você puder daí encanar num estilo de vida que faça sentido ético e material e não deixe os seus filhos vagueando no tráfego.

O abuso de drogas e o vício são problemas reais, é claro, cujo remédio é a educação e o tratamento médico, e não o encarceramento. De fato, parece que agora as drogas mais abusadas dentro dos Estados Unidos são a oxicodona e outros analgésicos de receita médica. Estes medicamentos deviam se tornar ilegais? É claro que não. Mas as pessoas precisam ser informadas a respeito dos seus riscos, e os viciados precisam de tratamento. E todas as drogas álcool, cigarros e aspirina inclusos devem ser mantidos fora do alcance das crianças.

Eu discuto questões de política de drogas em certo detalhe no meu primeiro livro, A Morte da Fé, e a minha opinião sobre o assunto não mudou. A guerra contra as drogas já foi perdida e nunca devia ter sido travada. Não consigo pensar em nenhum direito mais fundamental do que o direito de um indivíduo de administrar pacificamente os conteúdos da sua própria consciência. O fato de que arruinamos despropositadamente as vidas de usuários de drogas não-violentos encarcerando-os, a custos enormes, constitui um dos maiores fracassos da nossa época (e o fato de que geramos espaço para eles em nossas prisões dando liberdade condicional a assassinos, estupradores e molestadores de crianças nos faz questionar se a civilização não está simplesmente na ruína).

Tenho duas filhas que um dia usarão drogas. É claro que faço tudo dentro das minhas capacidades para me assegurar que elas escolham as suas drogas com sabedoria, mas uma vida vivida inteiramente sem drogas não é nem previsível nem, acho eu, desejável. Espero que elas um dia curtam um xícara de chá ou café de manhã tanto quanto eu. Se elas beberem álcool quando adultas, como irão provavelmente, eu as encorajarei a fazer isso com segurança. Se escolherem fumar maconha, instarei moderação.[2] Tabaco deve ser evitado, e farei tudo dentro das fronteiras de uma paternidade decente para guiá-las para longe dele. Nem preciso dizer que, se ficasse sabendo que as minhas filhas no fim das contas desenvolveriam um gosto por metanfetamina ou crack, talvez jamais dormisse novamente. Mas se elas não experimentarem um psicodélico como psilocibina ou LSD pelo menos uma vez na sua vida adulta, me perguntarei se elas não perderam um dos mais importantes ritos de passagem que um ser humano pode viver.

Isso não quer dizer que todo mundo devia usar psicodélicos. Como deixo claro abaixo, estas drogas apresentam certos perigos. Sem dúvida, algumas pessoas não podem se dar ao luxo de dar à âncora da sanidade sequer o mais leve puxão. Faz muitos anos que eu próprio não uso psicodélicos, e minha abstinência nasceu de um respeito saudável pelos riscos envolvidos. No entanto, houve um período nos meus vinte e poucos anos quando descobri que a psilocibina e o LSD eram ferramentas indispensáveis, e algumas das mais importantes horas da minha vida foram passadas sob a sua influência. Sem elas, talvez jamais tivesse descoberto que há uma paisagem mental interior digna de exploração.

Não dá para contornar o papel da sorte aqui. Se você for sortudo, e usar a droga certa, você saberá como é estar iluminado (ou estar perto o bastante para persuadi-lo de que a iluminação é possível). Se você for azarado, você saberá como é ser clinicamente insano. Embora não recomende a última experiência, ela realmente aumenta o seu respeito pela tênue condição da sanidade, bem como a sua compaixão pelas pessoas que sofrem de doença mental.

Os seres humanos têm ingerido psicodélicos naturais há milênios, mas a pesquisa científica sobre estes compostos não começou até os anos 1950. À altura de 1965, mil estudos haviam sido publicados, primeiramente sobre a psilocibina e o LSD, muitos dos quais atestavam a utilidade dos psicodélicos no tratamento da depressão clínica, do TOC, do alcoolismo e da dor e ansiedade associadas ao câncer terminal. Dentro de poucos anos, no entanto, este campo inteiro de pesquisas foi abolido num esforço para deter a difusão destas drogas entre o público. Após um hiato que durou uma geração inteira, a pesquisa científica sobre a farmacologia e o valor terapêutico dos psicodélicos tem sido retomada calmamente.

Psicodélicos como psilocibina, LSD, DMT e mescalina todos alteram poderosamente a cognição, a percepção e o humor. A maioria parece exercer a sua influência através do sistema cerebral de serotonina, primeiramente ligando-se a receptores 5-HT2A (embora várias tenham afinidade por outros receptores também), levando ao aumento de atividade no córtex pré-frontal (CPF). Embora o CPF por conseguinte module a produção subcortical de dopamina e certos destes compostos, como o LSD, se liguem diretamente a receptores de dopamina , o efeito dos psicodélicos parece ocorrer em grande parte fora dos caminhos dopaminérgicos, o que poderia explicar por que estas drogas não são viciantes.

A eficácia dos psicodélicos parece estabelecer a base material da vida mental e espiritual além de qualquer dúvida, pois a introdução destas substâncias no cérebro é a causa óbvia de qualquer apocalipse numinoso que venha a seguir. É possível, no entanto, se não for realmente plausível, agarrar esta evidência pelo outro fim e argumentar, como Aldous Huxley fez em seu clássico As Portas da Percepção, que a função principal do cérebro talvez seja eliminativa: o seu propósito pode ser impedir que uma dimensão mental transpessoal inunde a consciência, permitindo assim que macacos como nós naveguem pelo mundo sem ser deslumbrados a cada passo por fenômenos visionários que são irrelevantes para a sua sobrevivência física. Huxley pensava no cérebro como um tipo de válvula de redução para a Mente em Geral. De fato, a ideia de que o cérebro é um filtro ao invés de a origem da mente tem uma origem ao menos tão antiga quanto Henri Bergson e William James. Na visão de Huxley, isto explicaria a eficácia dos psicodélicos: Eles podem simplesmente ser um meio material de abrir a torneira.

Huxley estava operando sob o pressuposto de que os psicodélicos diminuem a atividade cerebral. Alguns dados recentes prestaram apoio a esta visão; por exemplo, um estudo de neuroimagem sobre a psilocibina sugere que a droga primeiramente reduz a atividade no córtex cingulado anterior, uma região envolvida numa ampla variedade de tarefas relacionadas à automonitoração. No entanto, outros estudos descobriram que os psicodélicos aumentam a atividade por todo o cérebro. Seja lá qual for o caso, a ação destas drogas não exclui de antemão o dualismo, ou a existência de domínios da mente além do cérebro mas aí, nada exclui. Esse é um dos problemas com visões desta espécie: Elas parecem ser infalseáveis.[3]

Temos razão para sermos céticos com respeito à tese do cérebro como uma barreira. Se o cérebro fosse meramente um filtro sobre a mente, danificá-lo devia aumentar a cognição. De fato, danificar estrategicamente o cérebro devia ser o método mais confiável de prática espiritual disponível para qualquer um. Em quase todo caso, a perda de cérebro devia gerar mais mente. Mas não é assim que a mente funciona.

Algumas pessoas tentam contornar isso sugerindo que o cérebro talvez funcione mais como um rádio, um receptor de estados de consciência ao invés de uma barreira para eles. À primeira vista, parece que isto explicaria os efeitos deletérios de danos e doenças neurológicas, pois se alguém esmaga um rádio com uma marreta, ele não vai mais funcionar direito. No entanto, há um problema com esta metáfora. Aqueles que a empregam invariavelmente se esquecem de que somos a música, não o rádio. Se o cérebro fosse nada mais que um receptor de estados conscientes, devia ser impossível diminuir a experiência do cosmos que tem uma pessoa danificando o seu cérebro. Ela poderia parecer consciente por fora como um rádio quebrado , mas, subjetivamente falando, a música continuaria a tocar.

Reduções específicas na atividade cerebral talvez beneficiem as pessoas de certas maneiras, desmascarando memórias ou habilidades que estão sendo ativamente inibidas pelas regiões em questão. Mas não há razão para pensar que a destruição difundida do sistema nervoso central deixaria a mente intacta (muito menos aperfeiçoada). Medicações que reduzem a ansiedade geralmente funcionam pelo aumento do efeito do neurotransmissor inibitório GABA, assim diminuindo a atividade neuronal em várias partes do cérebro. Mas o fato de que atenuar a excitação desta maneira pode fazer as pessoas se sentir melhor não sugere que se sentiriam melhor ainda se fossem drogadas coma adentro. Similarmente, não seria surpreendente se a psilocibina reduzisse a atividade cerebral em áreas responsáveis pela automonitoração, pois isto poderia, em parte, explicar as experiências que são frequentemente associadas à droga. Isto não nos dá razão alguma para crer que desligar o cérebro inteiramente geraria uma maior consciência das realidades espirituais.

No entanto, o cérebro exclui sim uma quantidade extraordinária de informação da consciência. E, como muitos que já usaram psicodélicos, posso atestar que estes compostos escancaram os portões. Postular a existência de uma Mente em Geral é mais tentador em alguns estados de consciência do que em outros. Mas estas drogas podem também produzir estados mentais que são vistos de melhor maneira como formas da psicose. Como uma matéria geral, creio que devíamos ser muito lentos ao tirar conclusões a respeito da natureza do cosmos com base em experiências internas não importa quão profundas elas pareçam.

NOTAS:

1. Uma ampla literatura agora sugere que o MDMA pode danificar os neurônios produtores de serotonina e diminuir níveis de serotonina no cérebro. Eis aqui a ponta o iceberg: 1, 2, 3, 4, 5 e 6. No entanto, há afirmações críveis de que muitos destes estudos utilizaram maus controles para dosagens em animais de laboratório que estavam altos demais para servirem de modelo para o uso humano da droga.

2. O que é moderação? Digamos simplesmente que jamais encontrei uma pessoa que fume maconha todo dia que achei que não se beneficiaria por fumar menos (e nunca encontrei alguém que nunca tenha experimentado que achei que não se beneficiaria por fumar mais).

3. O fisicalismo, em contraste, poderia ser falseado facilmente. Se a ciência estabelecesse a existência de fantasmas, ou reencarnação, ou de qualquer outro fenômeno que pusesse a mente humana (em todo ou em parte) fora do cérebro, o fisicalismo estaria morto. O fato de que os dualistas nunca podem dizer o que contaria como evidência contra as suas visões torna esta antiga posição filosófica muito difícil de distinguir da fé religiosa.

PARTE II

Uma coisa é certa: A mente é mais vasta e mais fluida do que sugere a nossa consciência normal em estado de vigília. E é simplesmente impossível comunicar a profundidade (ou aparente profundidade) de estados psicodélicos àqueles que jamais os experimentaram. De fato, é até difícil lembrar a si mesmo do poder destes estados uma vez que tenham passado.

Muita gente se pergunta a respeito da diferença entre a meditação (e outras práticas contemplativas) e os psicodélicos. São estas drogas uma forma de trapaça, ou são elas o único meio de autêntico despertar? Nenhum dos dois. Toda droga psicoativa modula a neuroquímica cerebral existente ou imitando neurotransmissores específicos ou fazendo com que os próprios neurotransmissores sejam mais ou menos ativos. Toda experiência que um indivíduo pode ter sob o efeito de uma droga é, em algum nível, uma expressão do potencial do cérebro. Assim, seja o que for que alguém tenha visto ou sentido após ter ingerido LSD é provável que tenha sido visto ou sentido por alguém, em algum lugar, sem o mesmo.

No entanto, não se pode negar que os psicodélicos são um meio unicamente potente de alterar a consciência. Ensine uma pessoa a meditar, rezar, entoar ou fazer ioga, e não há garantia alguma de que algo venha a acontecer. Dependendo da sua aptidão ou interesse, a única recompensa para seus esforços talvez seja enfado e dor nas costas. Se, no entanto, uma pessoa ingere 100 microgramas de LSD, o que acontece a seguir dependerá de uma variedade de fatores, mas não há dúvida de que alguma coisa vai acontecer. E enfado simplesmente está fora do baralho. Dentro da mesma hora, a significância da sua existência pesará sobre ela como uma avalanche. Como o finado Terence McKenna[4] jamais cansou de observar, esta garantia de profundo efeito, para o melhor ou para o pior, é o que separa os psicodélicos de todo outro método de investigação espiritual.

Ingerir uma poderosa dose de uma droga psicodélica é como amarrar a si mesmo a um foguete sem um sistema de orientação. Você pode acabar em algum lugar que vale a pena ir, e, dependendo do composto e do seu set and setting[NT: "set", estado mental que a pessoa traz à experiência; "setting", o ambiente físico e social], certas trajetórias são mais prováveis do que outras. Mas por mais metodicamente que se prepare para a viagem, você ainda pode ser lançado a estados mentais tão dolorosos e confusos a ponto de serem indistinguíveis de uma psicose. Daí os termos psicotomimético e psicotogênico que são ocasionalmente aplicados a estas drogas.

Já visitei os dois extremos no continuum psicodélico. As experiências positivas foram mais sublimes do que poderia ter imaginado ou do que posso agora fielmente recobrar. Estas químicas revelam camadas de beleza que a arte é impotente para capturar e para as quais a beleza da própria natureza é um mero simulacro. É uma coisa ser atemorizado pela visão de uma sequoia gigante e maravilhado pelos detalhes da sua história e biologia subjacente. É uma coisa bem diferente passar uma aparente eternidade em comunhão na ausência do ego com a mesma. Experiências psicodélicas positivas frequentemente revelam quão maravilhosamente em calmaria no universo um ser humano pode estar e para a maioria de nós, a consciência normal em estado de vigília não oferece tanto quanto um vislumbre dessas possibilidades mais profundas.

As pessoas em geral saem dessas experiências com um senso de que os estados convencionais de consciência obscurecem e truncam insights e emoções sagradas. Se os patriarcas e matriarcas das grandes religiões viveram tais estados de espírito, muitas das suas afirmações a respeito da natureza da realidade fariam sentido subjetivo. Uma visão beatífica nada lhe diz a respeito do nascimento do cosmos, mas revela sim quão plenamente transfigurada uma mente pode ser por uma plena colisão com o momento presente.

No entanto, como os picos são altos, os vales são profundos. Minhas bad trips foram, sem sombra de dúvida, as horas mais dolorosas que já aturei, e fazem a noção de inferno como uma metáfora, se não como um destino real parecer perfeitamente adequada. Ao menos, estas experiência excruciantes podem ser tornar uma fonte de compaixão. Acho que pode ser impossível imaginar como é sofrer de doença mental sem ter brevemente tocado as suas margens.

Nos dois extremos do continuum, o tempo dilata de maneiras que não podem ser descritas além de meramente observar que estas experiências parecem eternas. Já passei horas, tanto boas quanto ruins, nas quais qualquer compreensão de que havia ingerido uma droga foi perdida, e todas as memórias do meu passado se foram junto com ela. A imersão no momento presente a este grau é o sinônimo de sentir que você sempre esteve e sempre estará precisamente nesta condição. Dependendo do caráter da sua experiência nesse ponto, noções de salvação ou danação podem muito bem se aplicar. O verso de Blake sobre contemplar a eternidade em uma hora nem promete nem ameaça demais.

No começo, as minhas experiências com psilocibina e LSD foram tão positivas que não via como uma bad trip poderia ser possível. Noções de set and setting, reconhecidamente vagas, parecem suficientes para dar conta da minha boa sorte. Meu set mental estava exatamente como precisava estar eu era um espiritualmente sério investigador da minha própria mente e o meu setting era geralmente um ou de beleza natural ou de segura solidão.

Não posso explicar por que minhas aventuras com os psicodélicos foram uniformemente agradáveis até o ponto em que não eram mais, mas uma vez que as portas do inferno se abriram, parece que elas haviam sido deixadas entreabertas permanentemente. Daí em diante, independentemente de se a viagem foi boa ou não no cômputo geral, ela geralmente acarretava um excruciante desvio no caminho para a sublimidade. Já viajou, além de qualquer metáfora, para a Montanha da Vergonha e ficou lá por mil anos? Eu não recomendo.

Na minha primeira viagem ao Nepal, tomei um barco a remos no Lago Phewa em Pokhara, o que oferece uma visão maravilhosa da cordilheira de Annapurna. Era cedo de manhã, e estava sozinho. Conforme o Sol nascia sobre a água, ingeri 400 microgramas de LSD. Tinha vinte anos de idade e havia tomado a droga antes pelo menos dez vezes. O que poderia dar errado?

Tudo, como se sucedeu. Bem, nem tudo não me afoguei. Tenho uma vaga memória de ser levado pela corrente até a margem e ser rodeado por um grupo de soldados nepaleses. Após ficarem me olhando por um tempo, enquanto os encarava cheio de ternura sobre a borda do barco que nem um lunático, parecia que eles estavam a ponto de decidir o que fazer comigo. Algumas palavras cordiais em esperanto e umas loucas remadas, e estava longe da costa e no oblívio. Suponho que aquilo poderia ter terminado de forma diferente.

Mas logo não havia lago algum, nem montanhas, ou barco e se tivesse caído na água, tenho bastante certeza de que não teria havido ninguém para nadar. Pelas várias horas seguintes a minha mente virou um perfeito instrumento de autotortura. Tudo que permaneceu foi um contínuo abalo e terror para o qual me faltam palavras.

Um encontro como esse tira algo de você. Ainda que o LSD e drogas similares sejam biologicamente seguras, elas têm o potencial de produzir experiências extremamente desagradáveis e desestabilizadoras. Creio que fui afetado positivamente pelas boas viagens, e negativamente pelas ruins, por semanas e meses.

A meditação pode abrir a mente para uma gama similar de estados de consciência, mas de modo muito menos fortuito. Se LSD é que nem se amarrado a um foguete, aprender a meditar é que nem gentilmente levantar a vela do barco. Sim, é possível, até com orientação, acabar em algum lugar terrível, e algumas pessoas provavelmente não devem passar longos períodos em prática intensiva. Mas o efeito geral do treino meditativo é o de se estabelecer sempre mais plenamente dentro da sua própria pele e sofrer menos ali.

Como discuti em A Morte da Fé, vejo a maioria das experiências psicodélicas como potencialmente ludibriadoras. Psicodélicos não garantem sabedoria ou um reconhecimento claro da natureza desprovida do eu que possui a consciência. Elas meramente garantem que os conteúdos da consciência se modifiquem. Tais experiências visionárias, consideradas em sua totalidade, me parecem ser eticamente neutras. Portanto, parece que êxtases psicodélicos devem ser guiados na direção do nosso bem-estar pessoal e coletivo por algum outro princípio. Como Daniel Pinchbeck observou em seu livro altamente divertido, Breaking Open the Head, o fato de que tanto os maias quanto os astecas usavam psicodélicos, ao mesmo tempo em que eram entusiásticos praticantes de sacrifício humano, faz qualquer vínculo idealista entre o xamanismo vegetal e uma sociedade iluminada parecer terrivelmente ingênuo.

Como discuto alhures em meu livro, a forma de transcendência que parece se ligar diretamente ao comportamento ético e ao bem-estar humano é aquela que ocorre em meio à vida normal desperta. É deixando de se apegar aos conteúdos da consciência aos nossos pensamentos, humores e desejos que fazemos progresso. Este projeto não requer em princípio que experimentemos mais conteúdo.[5] O libertar-se do eu que é tanto a meta quanto o fundamento da vida espiritual é coincidente com a percepção e cognição normais embora, reconheço, possa ser difícil dar-se conta disso.
O poder dos psicodélicos, no entanto, é que eles frequentemente revelam, no espaço de poucas horas, profundidades de temor e compreensão que podem de outra forma nos escapar por uma vida inteira. William James o disse quase tão bem quanto ninguém:[6]

Uma conclusão foi forçada à minha mente naquele momento e a minha impressão da sua verdade desde então permanece inabalada. É que a nossa consciência normal desperta, consciência racional como a chamamos, não passa de um tipo especial de consciência, enquanto em torno dela, separadas dela pelo mais tênue dos crivos, se encontram formas potenciais de consciência inteiramente diferentes. Podemos seguir pela a vida sem suspeitar da sua existência; mas aplique o estímulo necessário, em um toque, lá estão elas em toda a sua completude, tipos claros de mentalidade que provavelmente em algum lugar possuem seu campo de aplicação e adaptação. Nenhum relato sobre o universo em sua totalidade pode ser final caso faça vista grossa a estas outras formas de consciência. Como considerá-las é a questão pois elas são tão descontínuas com relação à consciência ordinária. Mesmo assim, elas podem determinar posturas embora não possam fornecer fórmulas, e abrem uma região embora não ofereçam um mapa. De qualquer forma, elas proíbem um fechamento prematuro das nossas contas com a realidade.

(As Variedades da Experiência Religiosa, p. 388)

Creio que os psicodélicos possam ser indispensáveis para algumas pessoas especialmente aquelas que, como eu, de início necessitam de um convencimento de que mudanças profundas na consciência são possíveis. Depois disso, parece algo sábio encontrar maneiras de praticar que não apresentem os mesmos riscos. Felizmente, tais métodos são amplamente disponíveis.

NOTAS:

4. Terence McKenna é uma pessoa que me arrependo de nunca ter chegado a conhecer. Infelizmente, ele morreu de câncer cerebral em 2000, com 53 anos. Seus livros vale muito a pena ler, mas ele era, acima de tudo, um orador impressionante. É verdade que a sua eloquência com frequência o levou a adotar posições que podem apenas ser descritas (caridosamente) como panquecas, mas o homem, sem sombra de dúvida, era brilhante e sempre foi digno de ser ouvido.

5. Devia dizer, no entanto, que há experiências psicodélicas que não tive, que parecem entregar uma mensagem diferente. Ao invés de serem estados nos quais as fronteiras do eu são dissolvidas, algumas pessoas têm experiências nas quais o eu (em alguma forma) parece ser transportado para um outro lugar. Este fenômeno é bastante comum com a droga DMT, e pode levar os seus principiantes a conclusões bem alarmantes a respeito da natureza da realidade. Mais do que ninguém mais, Terence McKenna foi influente em trazer a fenomenologia do DMT à proeminência.

O DMT é singular entre os psicodélicos por várias razões. Todo mundo que o tenha experimentado parece concordar que é o mais potente alucinógeno disponível (não em termos de quantidade necessária para uma dose eficaz, mas em termos dos seus efeitos). É também, paradoxalmente, o que possui a ação de duração mais curta. Ao passo que os efeitos do LSD podem durar dez horas, o transe de DMT alvorece em menos de um minuto e se apazígua em dez. Uma razão para tal abrupta farmacocinética parece ser que este composto já existe dentro do cérebro humano, e é prontamente metabolizado pela monoaminoxidase. O DMT está na mesma classe química que a psilocibina e o neurotransmissor de serotonina (mas, além de ter uma afinidade com os receptores 5-HT2A, foi mostrado que o mesmo se liga ao receptor sigma-1 e modula os canais de sódio). A sua função no corpo humano permanece misteriosa. Entre os vários mistérios e insultos apresentados pelo DMT, ele oferece um zombaria final às nossas leis de drogas: Não apenas criminalizamos substâncias que ocorrem naturalmente, como a cannabis; criminalizamos um de nossos neurotransmissores.

Muitos usuários de DMT reportam ser lançados sob a sua influência a uma realidade adjacente onde se encontram com seres alienígenas que parecem ter a intenção de compartilhar informação e demonstrar o uso de tecnologias inescrutáveis. A convergência de centenas de relatos assim, muitos de usuários de primeira viagem que não foram informados sobre o que esperar, é certamente interessante. Vale a pena observar que estes relatos são quase inteiramente livres de imaginário religioso. Perece que é muito mais provável encontrar extraterrestres ou elfos sob o efeito do DMT do que santos e anjos tradicionais. Como não experimentei DMT, e não tive uma experiência do tipo que seus usuários descrevem, não sei o que fazer de tudo isso.

6. É claro que James estava relatando as suas experiências com óxido nitroso, que é um anestésico. Outros anestésicos, como o hidrocloreto de cetamina e o hidrocloreto de fenilciclidina (PCP), possuem efeitos similares sobre o humor e a cognição em doses baixas. No entanto, há muitas diferenças entre estas drogas e os psicodélicos clássicos uma sendo que altas doses destes não levam à anestesia geral.

Autor: Sam Harris (link para o artigo original)

Tradução: Luan Marques

FONTE:

BULE VOADOR

http://www.bulevoador.com.br/2014/06/drogas-e-o-sentido-da-vida-parte-i/

http://www.bulevoador.com.br/2014/06/drogas-e-o-sentido-da-vida-parte-ii/

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