Publicado por: Conselheiro Fnord | 17/04/2014

MUNDO DISCORDIANISTA: Sobre igrejas e para-raios


Obrigado ciência! A função do para-raios (em inglês lightning rod) é evitar que os raios ocorram. Basicamente as pontas atraem os raios, e um fio ligado ao para-raios o conduz até a terra.

fig34

Como funciona um para-raios

O para-raios tornou-se uma necessidade conforme as construções iam tornando-se mais altas. Normalmente atribui-se a invenção do para-raios ao estadunidense Benjamin Franklin (1706 – 1790) que em junho de 1752 tentou provar com seu experimento da pipa, que os raios também eram eletricidade. Dois anos depois do experimento de Franklin, no reino da Bohemia no antigo Império Austríaco (hoje República Tcheca) Prokop Divis (1698 – 1765) inventou um para-raios ainda melhor, pois este era aterrado, e o de Ben Franklin inicialmente não.

[Tentei encontrar alguma referência em livros/sites sobre para-raios em tempos antigos, mas nenhuma das fontes tinha muitas informações a respeito].

Na falta de uma explicação para a ocorrência dos raios, a igreja contava a seus fiéis que os temporais eram causados por agentes diabólicos ou pela própria providência (ele, deus). Vários intelectuais da igreja também abraçaram estas ideias, como Santo Agostinho (354 DC – 430 DC), São Tomás de Aquino (1225 – 1274) e Lutero (1483 – 1546).

Para Lutero o raio teve um sentido ainda mais especial em sua vida. Em 1505, aos seus 22 anos, Lutero caminhava feliz e contente por uma floresta a caminho da Universidade de Erfurt, quando quase foi fulminado por um raio. Lutero teria se ajoelhado e rezado para Santa Ana dizendo que se sobrevivesse aquela tempestade se tornaria monge. Ele sobreviveu e duas semanas depois entrou no monastério dos eremitas de Santo Agostinho.

Os raios davam motivos suficientes para serem vistos como coisa do demônio ou como a manifestação da ira divina.

Adivinhe só quais eram umas das estruturas preferidas dos raios?

Se você disse igreja, acertou.

Catedral de Canterbury

Catedral de Canterbury

E por um motivo que hoje sabemos ser óbvio: elas eram uma das estruturas mais altas da época e para ajudar (ou piorar) haviam os sinos feitos de metal. Só faltava uma plaquinha com o alvo! E não adiantava o Papa Gregório XIII fazer suas missas ameaçando demônios, espíritos maus da natureza, colocar talismãs ou ainda benzer os sinos com água benta, ainda assim vários mosteiros e abadias tiveram que ser reconstruídos, às vezes mais de uma vez, por causa da destruição causada pelos raios. Exemplos disso são o Monastério de Canterbury, a Abadia de Croyland e de Peterborough. Além disso, vários dos responsáveis por tocarem sinos morreram eletrocutados.

Na Alemanha em 1784 uma publicação intitulada: Uma prova que tocar sinos durante as tempestades pode ser mais perigoso do que útil, explica que desde 1750, um total de 386 torres de igrejas foram atingidas por raios, e 121 “tocadores de sinos” foram mortos. Em 17 de junho de 1755, um raio atingiu uma igreja e matou 7 pessoas instantaneamente _ 4 eram crianças. Em 1786 o parlamento de Paris proibiu de vez que sinos fossem tocados durante as tempestades _ mas mesmo assim o costume perdurou por muito tempo.

Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

Franklin vivia na colonia britânica da Filadélfia, a mais cosmopolitana das comunidades da América do Norte. Longe da Europa, e longe do medo que a igreja causava naqueles que queriam manifestar novas ideias, ali a religião ainda não tinha muita força _ se comparada como era na Europa. Aliado ao fato de Franklin ser uma pessoa influente na sociedade (depois se tornaria um dos Founding Fathers dos EUA), isto ajudou que sua invenção fosse utilizada. Porém não sem resistência, pois muitas pessoas se recusavam a acreditar que um simples pedaço de metal pudesse conter a fúria divina. A igreja ajudava na campanha contra o instrumento considerado herético. Os para-raios de Franklin foram até acusados por opositores de causarem terremotos.

Conforme o tempo foi passando, o invento passou a ganhar fama, mesmo na Europa, e alguns governos passaram a exigir a instalação dos para-raios nos locais propensos a serem atingidos.

Estoque de pólvora

A pólvora foi descoberta na China na época da Dinastia Han (202 AC – 220 DC) e se popularizou na Europa apenas no século XV.

Não descobri a razão, mas guardavam pólvoras e armas nas igrejas _ talvez por serem um bom esconderijo. Quando um raio “fatal” atingia uma igreja que estocava pólvora, os resultados eram catastróficos.

Um destes casos aconteceu na igreja de San Nazaro, Brescia (96 km de Milão), Itália no ano de 1769. Havia 100 TONELADAS de pólvora guardadas na igreja quando um raio a atingiu. A explosão destruiu 1/6 da cidade e deixou boa parte do que sobrou seriamente danificado, além disso, matou aproximadamente 2.500 pessoas _ e deixou 500 seriamente feridas.

Depois do ocorrido, o parlamento inglês teve de criar padrões de manufatura e armazenamento de pólvora para particulares afim de evitar que isto acontecesse novamente. Mas longe dali teve, anos depois, teve quem sofreu com esta combinação.

Dentro do Palácio dos Grandes Mestres na ilha de Rodes, Grécia, está localizada a igreja de St John, que também tinha seu estoque de pólvora mantido pelos turcos _ e um sino. O palácio servia de local de proteção para a população local. Em 1856, uma tempestade forte aconteceu e raios atingiram o palácio causando uma grande explosão, praticamente destruindo-o e matando cerca de 4.000 pessoas. Na década de 1920 Mussolini mandou reconstruir o palácio.

Paulatinamente as igrejas foram equipando-se com o instrumento herético, os Estados ajudaram nesta mudança pois não era razoável que pessoas continuassem a morrer, fora o gasto com a reconstrução de cada templo. A basílica de St Mark em Veneza com uma torre de pouco mais de 100 metros foi danificada por raios cerca de 9 vezes (1388, 1417, 1489, 1548, 1565, 1653, 1745, 1761 e 1762) até que finalmente recebeu um para-raios no ano de 1766 e nunca mais teve problemas.

De um jeito ou de outro, a superstição teve de ser curvar, mais uma vez, perante a ciência. A evolução humana agradece.

Em tempo 1: Maximilien Robespierre (ele mesmo, da Revolução Francesa) quando ainda era um jovem advogado, defendeu um caso em que queriam que seu cliente (Vissery) retirasse o para-raios de sua casa, pois, segundo o acusador, este poderia atrair um raio que poderia atingir a casa do vizinho. Robespierre venceu o caso. Após a vitória, ele enviou carta a Franklin com os argumentos que o ajudaram a vencer o caso.

Em tempo 2: Jean-Paul Marat, outro influente revolucionário da Revolução Francesa, também fez pesquisas na área da eletricidade, e também escreveu sobre o para-raios e teve participação no caso acima citado.

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2014/04/sobre-igrejas-e-para-raios/

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Responses

  1. Você tá precisando ler René Guénon.

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