Publicado por: Conselheiro Fnord | 04/12/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: A Ameaça do Cientificismo


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Nota introdutória: O texto a seguir é um trecho do livro The Really Hard Problem, de Owen Flanagan, que explora a busca por sentidos na vida a partir de um ponto de vista não sobrenatural. Nesse trecho, ele explica porque as pessoas não precisam temer que a ausência de crença em algo sobrenatural leve ao cientificismo.

O cientificismo é a fonte de um tanto do mal-estar com relação à ciência contemporânea. Cientificismo é a doutrina ousada e extrapladora de que tudo que é digno de ser dito ou expresso pode ser dito ou expresso num idioma científico. Seria possível dizer que alguns dos positivistas lógicos europeus dos anos 1920 e 1930 chegaram perto de abraçar o cientificismo.

A afirmação de que a ciência pode, em princípio, explicar tudo que pensamos, dizemos e fazemos que pode, em princípio, oferecer um relato causal do ser humano (um relato causal do Dasein) deve ser distinguida da afirmação de que tudo pode ser expresso cientificamente. Considere a arte e a música. É, evidentemente, loucura dizer que as obras de Michelangelo, Da Vinci, Van Gogh, Cezanne, Picasso, Mozart, Chopin, Schönberg, Ellington, Coltrane, Dylan ou Nirvana poderiam ser expressas cientificamente. Presumindo algo como o melhor cenário para a ciência, poderíamos querer dizer que produções artísticas e musicais podem ser analisadas nos termos de suas manifestações físicas pintura em termos de química e geometria e música em termos de ondas sonoras e relações matemáticas.

Além disso, alguma combinação bem complexa da cultura, da vida individual e do cérebro de algum ou alguma artista pode permitir algo como um esboço de explicação de por que este ou esta artista produziu as obras que produziu. Kay Redfield Jamison (1993) produziu um trabalho interessante sobre a alta incidência de transtorno bipolar entre grandes poetas e músicos dos séculos xix e xx. Esse trabalho pode nos levar a entender mais profundamente no que consiste a imaginação comum e criativa. Mas um trabalho desses não substitui ou revela o que Walt Whitman, T. S. Eliot, W. B. Yeats, Dylan Thomas, Sylvia Plath ou Seamus Heaney dizem, querem dizer ou fazem na linguagem da poesia.

Não há nada remotamente estranho a respeito desses tipos de investigação científica da arte e da música, ou dos próprios processos criativos. Mas, embora tal investigação tome a produção artística e musical como algo a ser explicado, ela não toma a produção em si como expressando algo que possa ser declarado cientificamente. A afirmação de que nem tudo pode ser expresso cientificamente não é uma afirmação de que a arte, a música, a poesia, a literatura e as experiências religiosas não podem em princípio ser explicadas cientificamente, ou que estas produções envolvem poderes mágicos ou misteriosos. Seja o que for que expressem, é algo perfeitamente humano, mas o idioma apropriado não é um idioma científico. O idioma científico requer palavras e, com frequência, fórmulas matemáticas. Pintura, escultura e música não requerem nenhuma destas. De fato, não podem em princípio expressar o que expressam em palavras ou fórmulas matemáticas. Logo, seja o que for que expressem não é exprimível cientificamente. Sem dúvida, a poesia, a literatura e a música usam palavras. Mas seu idioma não é um idioma científico. E há duas razões para isso: Muitas das relações exploradas não são exploradas causalmente (a relação na qual a ciência se destaca). Uma boa canção de amor pode fazer você sentir amor, mas nunca o faz entrando na feromônica e na neurobiologia do amor. As artes trabalham nossas imaginações com todos os truques lúdicos da linguagem, alegoria, metáfora e metonímia com os quais a ciência, por seus propósitos, não se importa muito.

Os historiadores da literatura e da arte frequentemente nos contam coisas úteis sobre a arte por exemplo, sobre como poetas e artistas foram influenciados por ideias científicas e os psicólogos podem explicar coisas importantes sobre a psicologia da percepção. Apesar da iluminação provida, nenhum deles oferece nada que se aproxime de uma explicação completa ou satisfatória do que qualquer obra artística interessante significa ou faz. O ponto simples e óbvio é que nem tudo que vale a pena expressar pode ou deve ser expresso cientificamente. O cientificismo é descritiva e normativamente falso. Isso, eu gosto de pensar, abrandará um pouco da ansiedade. Essa consequência me agrada, pois faz parte do meu temperamento não gostar que as pessoas fiquem ansiosas. Se houvesse uma base legítima para sentir temor e tremor, doença até a morte, e coisas do tipo, teríamos que dizer. Mas não há, então não digo.

Tradutor: Luan de Oliveira

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2013/12/ameaca-cientificismo/

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