Publicado por: Conselheiro Fnord | 19/11/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: A política nos chama…


Dados do censo realizado pelo IBGE em 2010, disponibilizados pelo jornal O Globo*, indicam que no Brasil há mais de 14 milhões de pessoas que declararam não pertencer a nenhuma religião, o que corresponde a 8% da população brasileira, ficando atrás apenas de católicos e de evangélicos. O grupo das pessoas sem religião quase que dobrou desde 1991, quando o censo realizado à época apontou que os descrentes eram 4,7% do total da população nacional.

Há, além dessa considerável porção da população brasileira, muitas outras pessoas que, de uma maneira ou de outra, simpatizam com princípios humanistas em geral, são favoráveis a uma efetiva separação institucional e política entre Estado e religiões, apoiam causas e movimentos progressistas etc. E, para representar tal parcela da população, surgiram nas últimas décadas diversas associações ou grupos de céticos, humanistas e secularistas em geral.

Por mais que essas associações tenham crescido de maneira considerável nos últimos anos, e que alguns de seus expoentes tenham até ganhado certa repercussão na mídia, o potencial político desses grupos não tem sido explorado como deveria, se levado em consideração o peso da população que representam.

Além disso, há pouca interação entre esses grupos. Assim, a atuação em defesa dos interesses comuns é heterogênea, descentralizada e, muitas vezes, descoordenada. Esse fato é até compreensível, dada a grande diversidade de abordagens, de ideias e de posicionamentos, muitas vezes conflitantes, presentes nesses grupos.

Que fique claro, aqui não se quer criticar por criticar. Essas associações têm desempenhado muito bem os seus papeis de representantes dos céticos, dos humanistas e dos secularistas em geral. Combatem, apesar das dificuldades e do baixo orçamento, os repetidos abusos perpetrados por aqueles que insistem em imiscuir assuntos de Estado com os interesses de determinado credo, em claro detrimento ao princípio da laicidade do Estado.

Contudo, uma maior interação institucional e política entre todos esses grupos seria muito bem-vinda, afinal, o que todas essas associações poderiam fazer se atuassem de maneira mais coesa? E se todos os grupos estivessem reunidos numa única associação ou painel?

Os evangélicos, apesar das diversas denominações, possuem agenda comum e têm poder suficiente para influenciar o governo; eles estão cada vez mais poderosos, e assim estão porque eles sabem aproveitar bem o potencial político que têm. Enquanto nós disputamos curtidas e visualizações no Facebook, os religiosos disputam votos. Eles sabem fazer política melhor do que a gente. E isso é grave!

Não resta alternativa: a entrada definitiva na política para servir de contraponto legislativo ao avanço fundamentalista é urgente. Os partidos políticos brasileiros, com raras exceções, são tão pragmáticos e tão pouco comprometidos com princípios, que seria ingenuidade confiar neles a defesa dos interesses dos céticos, humanistas e secularistas em geral.

Mas, e aí, o que fazer?

Em primeiro lugar, todas as denominações citadas deveriam se articular para formar uma única associação ou painel, cujos representantes de todos esses grupos seriam responsáveis por criar e executar uma agenda comum, na qual ficariam estabelecidos princípios e metas. Estariam previstas, por exemplo, ações coordenadas para combater a grande ateofobia existente no país (vale lembrar que, de acordo com estatísticas, ateus e drogados são os grupos mais rejeitados pela sociedade); a defesa e a promoção de princípios humanistas e secularistas em geral; suporte a causas específicas, como a do movimento LGBT por direitos civis plenos etc.

Claramente, uma associação desse porte teria que ser democrática e inclusiva, além de estar pautada pela ética e pela transparência; no estatuto, haveria garantias e outros mecanismos legais que impediriam a perpetuação de um único grupo no poder; preferencialmente, a presidência seria rotativa e as decisões mais importantes seriam tomadas apenas mediante votação de todos os membros; os fundos recebidos, bem como sua aplicação, seriam submetidos a constantes controles internos e externos, como auditorias independentes.

Uma vez consolidada, tal associação se encarregaria também da articulação política: dialogaria com o governo, e até mesmo participaria de campanhas políticas, seja apoiando candidatos que se comprometessem com a agenda comum, seja criando um partido político próprio em médio ou longo prazo.

Tal processo deve ser amplamente debatido e trabalhado entre todos os grupos e associações afins. É preciso maturidade para colocar de lado eventuais desavenças, focando nos pontos que têm em comum. Deve-se atuar conjuntamente nas convergências, e isso não implica em diminuir a diversidade de ideias que é peculiar dos grupos de céticos, humanistas e secularistas em geral.

É certo que, caso não se entre definitivamente na política, em médio prazo não haverá contraponto político às poderosas bancadas religiosas, que a cada eleição se tornam maiores e mais influentes. O Judiciário continuará sendo a barreira efetiva ao avanço fundamentalista que ameaça o Brasil; com o tempo, até mesmo a Justiça poderá não ser suficiente para contê-lo.

A forma como o PT tratou a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados, que a concedeu ao PSC de Marco Feliciano como moeda de troca por apoio no Congresso Nacional, foi a gota dágua de uma série de desmandos cometidos por um governo, em tese, progressista, mas que não vê problemas em barganhar a própria alma ao diabo pela tão almejada governabilidade. E não pensem que na oposição a situação seria muito diferente!

Não se pode mais contar com partidos que já estão muito dependentes do capital político proporcionado pelos religiosos. Precisamos de lideranças e de representantes verdadeiramente comprometidos com a nossa causa, criando nosso próprio capital político, colocando-nos como contraponto político às bancadas religiosas.

A política nos chama. Passou da hora de atendermos o seu chamado!

* Dados do Censo IBGE de 2010 disponibilizados pelo Jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/infograficos/censo-religiao/

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2013/11/politica-nos-chama/

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