Publicado por: Conselheiro Fnord | 13/11/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: Pessoas Merecem Respeito… Idéias Não… Ou Não…


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O lema da imagem acima, “Pessoas merecem respeito, ideias não”, é muito repetido por antiteístas que reivindicam o direito de não só criticar as religiões e considerá-las “contos de fadas”, mas também de zombar delas, tratar a fé alheia como lixo e assim ofender a sensibilidade religiosa de outras pessoas. A frase é problemática por não revelar que conceito de “respeito” ela usa e dar margem, inclusive para os próprios autores da frase, a desrespeitar indiretamente os religiosos – ainda que a imagem em si deixe claro qual é o significado da palavra.

O termo “respeito” tem múltiplos sentidos possíveis, inclusive de acordo com os dicionários. Quanto ao “respeito” mencionado pela sentença, não fica claro se significa “direito de não ser ofendido e vilipendiado”, “direito de não ser criticado a ponto de ter o prestígio esvaziado” ou uma combinação de ambos os significados. Com isso, a frase inspira tanto os neoateus respeitosos, que se restringem a criticar e desprestigiar de forma racional e equilibrada as religiões em seus dogmas, crenças, mitos e valores, como aos antiteístas que se veem no direito de considerá-las em geral, desde suas correntes moderadas e saudáveis até suas vertentes fundamentalistas e destruidoras, puro lixo a ser pisoteado, amassado e jogado em lixeiras.

Está em seu direito quem critica religiões como o cristianismo e o islamismo, apontando-lhes contradições internas, incompatibilidades com a realidade, inverossimilhanças de suas narrativas mitológicas, ditames morais hoje imorais que constem nos livros sagrados ou na tradição, crenças específicas que inspirem credocentrismo (centralização de toda a verdade do universo na religião que a pessoa segue e invalidação de tudo o que outras crenças religiosas pregam), a prática de sacrifícios contra seres sencientes, o respeito incondicional a quem não professa da mesma fé etc.

Esse tipo de crítica não só é válido como também é essencial na mudança cultural interna às religiões, forçando-as a mudarem sua moral a algo cada vez mais interseccionado com a ética – que é basicamente o que vem acontecendo nas sociedades de passado cristão desde pelo menos a Reforma Protestante. É algo necessário para humanizar as crenças e valores morais religiosos, tornando-os simpáticos à libertação humana, ao respeito a todos os seres que merecem respeito, à oposição manifesta ao uso da religião como meio de controle e escravização mental, ao uso integral da razão pelo ser humano, à igualdade entre todos os seres humanos – e também entre todos os seres sencientes – etc.

Nesse sentido, que coloca o termo “respeito” como blindagem a críticas fortes e desconstrutoras, é que convém afirmar que ideias em si não precisam ser respeitadas e incluir as crenças religiosas entre elas. Mas vale frisar que isso não equivale a dizer que as divindades dessas religiões podem ser desrespeitadas. É esse, aliás, o grande erro dos antiteístas que usam a mencionada frase para extravasar sua intolerância contra religiões em geral – tratar divindades ou humanos míticos veneráveis, vistos como seres concretos, ainda que imateriais, pelos religiosos, como se fossem tão “ideias” ou abstrações quanto um dogma ou uma norma elencada no Velho Testamento cristão.

Os antiteístas que vivem publicando imagens de escárnio contra Jesus, Deus, Mohammed, Maria e outros personagens das narrativas religiosas, por se mostrarem antropologicamente ignorantes, não compreendem que os religiosos os tratam e os estimam como tão reais, concretos e íntimos quanto as pessoas de sua família. Ao se falar impropérios nada racionais sobre Deus, desenhar charges ofensivas de Mohammed e satirizar maliciosamente Jesus, é como se estivessem ofendendo a mãe, o irmão, o cônjuge ou os filhos da pessoa religiosa. É, em outras palavras, desrespeitar e ofender os religiosos, tal como alguém se sente ofendido ao ser chamado de “filho da p.”.

E até para o próprio ponto de vista dos ateus humanistas, fazer imagens estabelecendo uma divisão maniqueísta maliciosa dos seres humanos entre “religiosos maus, fanáticos e irracionais” e “ateus bons, lúcidos e racionais”, dizer que religiões são algo “99% maligno”, generalizar a todas as religiões e subdivisões religiosas existentes as insanidades típicas do fundamentalismo religioso, chamar a religião em geral de “a raiz de todo o mal” e colocar o ateísmo e a irreligião como a salvação da humanidade passam muito longe de serem críticas honestas, racionais e éticas às religiões. E também são um claro desrespeito não só às ideias trazidas pelas religiões, mas também aos próprios religiosos.

Os neoateus e antiteístas precisam deixar claro qual é a concepção de “respeito” que usam quando afirmam que “pessoas merecem respeito, ideias não”. Sem essa clareza, as portas do inferno da intolerância religiosa mútua permanecerão escancaradamente abertas, os ateus continuarão perdendo sua credibilidade de defender o fim do preconceito contra eles e a cultura de respeito às diferenças será cada vez mais apenas uma utopia distante.

Mas deve-se deixar claro que alguns grupos de neoateus antiteístas, como o que fez a imagem acima, já decidiu qual o sentido da frase em questão: o ato de “não respeitar” ideias como as religiões implicaria zombar das religiões, literalmente tratá-las como lixo e assim desrespeitar frontalmente a fé das pessoas, injetando a frase com uma grave contradição, uma vez que, ao mesmo tempo que se prega o respeito às pessoas, promove-se o desrespeito à fé delas – e isso implica, queiram os antiteístas ou não, desrespeito às próprias pessoas.

Com isso, fica a necessidade de que os bons neoateus (os que não promovem violência contra símbolos religiosos e apenas criticam racionalmente as religiões naquilo que é passível de ser criticado) e os ateus humanistas se posicionem contra aqueles que, sob o pretexto de que “ideias não merecem respeito”, promovem blasfêmias nada racionais e inteligentes magoando adjacentemente as pessoas que são aderentes das “ideias” chamadas religiões. Deve-se evitar que o “desrespeito de ideias” continue saindo do campo filosófico e humanístico e desaguando nas desnecessárias baixarias que vemos em imagens compartilhadas por certas páginas do Facebook.

Autor: Robson Fernando de Souza
Fonte: Consciencia.blog.br

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2013/11/desmentindo-imagens-antirreligiosas-preconceituosas-parte-14-pessoas-merecem-respeito-ideias-nao/

E alguns comentários lá no Bule Voador…

  • Adroaldo
    Parece fácil simplesmente tolerar uma pessoa desonesta que está deliberadamente mentindo para conseguir controle e dinheiro. Até ver seus amigos e família acreditando na mentira e dando seus bens ao bandido. Não são as mentiras que causam mal. As vezes nem pessoas merecem respeito.
  • Maiko
    Pelo o que eu entendo de liberdade de expressão eu posso falar o que bem entender sobre o ser mitológico que eu quiser.

    Se a pessoa se ofende o suficiente para tentar matar um cartunista por ver um profeta maomé em uma satíra, o problema é dela, eu não devo ser tolerante com pessoas intolerantes e me calar.

    Ideias não valem nada, e se vale pra você que você fique quieto você não tem o direito de ser mimado o suficiente pra nunca ser debochado.

    Tirando a religião do argumento, pelo seu texto eu não posso esboçar meu desprezo por um time de futebol rival porque meu colega de trabalho considera o estadío do time dele sua segunda casa ?

    Concordo apenas com a parte que o deboche não é a estratégia mais inteligente de se usar para evitar preconceitos. Mas quem sou eu pra falar pra alguém o que ele deve fazer, eu nem sei se ao menos ele se importa com alguma causa especifica (preconceito contra ateus).

  • AntonioOrlando
    Estava eu a ler o livro do Dawkins, para evolucionistas e ateus, o clássico “O gene egoista”, quando para minha surpresa, lá pela página 57, Dawkins diz: “A descrição da origem da vida que apresentarei é necessariamente ESPECULATIVA: por definição não havia ninguém lá para observar o que aconteceu.”. Nesse sentido, o texto abaixo:

    …Está em seu direito quem critica religiões como o cristianismo e o islamismo, apontando-lhes contradições internas, incompatibilidades com a realidade, inverossimilhanças de suas narrativas mitológicas, ditames morais hoje imorais que constem nos livros sagrados ou na tradição, crenças específicas que inspirem credocentrismo (centralização de toda a verdade do universo na religião que a pessoa segue e invalidação de tudo o que outras crenças religiosas pregam), a prática de sacrifícios contra seres sencientes, o respeito incondicional a quem não professa da mesma fé etc..

    Poderia ser modificado para: Está em seu direito quem critica o neoateísmo, apontando-lhes contradições internas, incompatibilidades com a realidade, inverosimilhança de suas narrativas “mitológicas” (o gene egoista, por exemplo), moral programada pela evolução que constam nos livros “sagrados” de caras como Harris, Pinker, Dawkins etc., ou “credocentrismo (centralização de toda a verdade do universo na teoria dawiniana da evolução) e, em função disso a invalidação de toda a filosofia, história ou qualquer coisa que se choque como o credo neodarwinista e afins.

    Acho que a arrogância neoateia , e seu consequente desrespeito ao que não lhe é espelho, não raro, é fruto da ignorância a respeito daquilo que criticam. Li Sam Harris, Pinker, Dawkins e agora estou lendo Daniel Dennett. Harris, Pinker e Dawkisn foram uma decepção: falta de embasemnto das criticas, ignorância do objeto da critica e, aqui e ali, diluido em subtextos, racismo e misoginia. Esperava mais do Dennett, no entanto, quando um filósofo, é assim que ele se chama, coloca toda a base, e origem, do conhecimento humano na teoria da evolução ele perde toda a crediblidade. Como você pode embasar a origem da civilização humana a partir de ESPECULAÇÕES, posto que: ..” por definição não havia ninguém lá para observar o que aconteceu.”?

  • Rodrigo César Dias
    Fazia um mês que eu não frequentava essa página. Agora, ao retornar, lembrei por quê. A covardia moral do Bule é deprimente.

    O Robson acha que podemos criticar a religião, mas não zombar dela, porque isso ofende os religiosos. Eis o resumo do seu pensamento.

    A questão é a seguinte: quem, nesse mundo, tem imunidade contra zombarias? Quem tem o direito de não se sentir ofendido? Ninguém. Até outro dia George W. Bush era o homem mais poderoso do mundo e era ridicularizado o tempo inteiro. O ex-presidente Lula era satirizado toda terça pela turma do Casseta e Planeta. Outro dia, quando o São Paulo ainda corria risco de ser rebaixado para a segunda divisão, vi um meme na internet em que o goleiro Rogério Ceni aparecia trajando um vestido, e ao lado da imagem havia a seguinte frase: “tomara que caia”. E o que falar de Rubens Barrichello? Alguém conhece um ser humano que foi mais vítima de troças quanto ele?

    É curioso como nós usamos um duplo padrão para tratar a zombaria. Se o alvo da facécia é um jogador de futebol, um presidente da república, um cientista famoso ou uma celebridade midiática, isso é considerado como algo inofensivo, como uma manifestação legítima da liberdade de expressão. Quando, entretanto, o alvo do chiste é a religião, ou um personagem religioso, aí dizem que é intolerância, preconceito, perseguição etc.

    Esse texto abjeto e pusilânime do Robson poderia ter sido assinado por qualquer religioso, porque ele reflete muito bem aquela hipersensibilidade doentia que é a marca registrada de quem crê em Deus. Os religiosos podem ser definidos como os “homens de porcelana”, ou “o povo do dodói”. Você não pode encostar o dedo neles que eles começam a gritar.

    Não devemos nos esquecer ainda que os próprios religiosos jamais – REPITO, JAMAIS – deixaram de utilizar a zombaria para atacar seus adversários ideológicos. Pensem, por exemplo, naquele pastor da Universal chutando uma santa no feriado de Nossa Senhora, ou na vandalização dos templos católicos e na destruição de ícones sagrados promovidas pelos huguenotes na França logo após a Reforma. Ou então naquelas caricaturas grotescas, publicadas nos jornais ingleses após o lançamento de A Origem das Espécies, em que o Darwin aparecia como um híbrido de homem e de macaco. Pensem, se quiserem, no modo como os pastores evangélicos se referem, em seus cultos inflamados, aos deuses das religiões de matriz africana. Todos eles são descritos como demônios. Na Cidade de Deus, Santo Agostinho não vê o menor problema em chamar Júpiter de estuprador. Se você não percebe o nível de agressividade disso, imagine se eu dissesse que o Deus cristão é um assassino.

    Os religiosos jamais abominaram a blasfêmia. O que eles não toleram é que a blasfêmia seja utilizada contra o seu Deus. É por isso que, se aquele arremedo de lei da blasfêmia que existe aqui no Brasil fosse rigorosamente aplicado, não ficaria ninguém fora da cadeia, nem ateus e muito religiosos.

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