Publicado por: Conselheiro Fnord | 07/11/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: O ateísmo como modinha da internet


02-Ateismo-modinha

Que as redes sociais tiveram um papel fundamental no fortalecimento do chamado Neo Ateísmo a forma mais enfática e militante proposta por autores como Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens, entre outros e no possível (falarei mais tarde sobre esse termo) crescimento da comunidade atéia, não creio ser novidade para ninguém. Basta alguém usar o facebook para que volta e meia o assunto ateísmo apareça na timeline, seja fruto de um meme (muitas vezes debochado e até ofensivo) ou de alguém abertamente expondo suas opiniões sobre religião.

Mas a coisa não se resume ao facebook, o fenômeno é global na internet. Em qualquer rede social, o debate ateísmo x teísmo está sempre entre os assuntos mais falados e inflamados. Na rede social de perguntas e respostas Quora, por exemplo, a qualquer momento há dezenas de discussões ativas de alto nível. E a vantagem desta sobre as demais é que permite um debate mais aberto, visto que lá não é uma rede de amigos propriamente dita, mas uma rede de conhecimento, onde pessoas perguntam o que quiserem, e quem quiser responde, sem as amarras emocionais envolvidas com estar falando com amigos, logo ateus e religiosos ficam a vontade para perguntar o que quiserem sobre o que pensa a outra parte, enriquecendo bastante o debate.

Mas como é comum a todo crescimento de uma voz de oposição, isso incomoda aos mais conservadores, tanto aqueles que são teístas convictos como os que estão em cima do muro, mas também não estão afim de ter seus valores questionados. E um argumento que sempre aparece é que os ateus são uns chatos e que esse crescimento todo não passa de uma modinha. Será?

Vamos analisar o que seria uma possível modinha nesse caso: novos ateus deixariam de ser ateus depois que a moda passa, é isso? Para que isso fosse possível, o ateísmo só pode estar sendo enxergado, por aqueles usa esse argumento da modinha, como uma opção. O que não é muito diferente daqueles que se opõe ferrenhamente ao homosexualismo, como se o mesmo fosse de alguma forma evitável.

O ateísmo, assim como o homosexualismo, não é, de forma alguma uma opção. Claro que os motivos pelos quais essas duas coisas deixem de ser optativas sejam fundamentalmente diferentes, ainda assim é possível usá-las em uma analogia, pois ambas são atacadas pelas mesmas pessoas, pelos mesmos motivos, como se fossem opcionais.

no_godVocê pode escolher no que você acredita? Não estou nem falando se você pode escolher ou não ser católico ou umbandista, pois aí entram muitas outras variáveis. Estou falando do aspecto fundamental da coisa, do simples acreditar. Você pode escolher acreditar, a partir de agora, que tem um milhão de reais na sua conta, mesmo sabendo que não tem? Não, né? E por que? Por que todas as evidências, e o fato de que ontem mesmo você olhou seu saldo, apontam para o fato de que você não tem esse dinheiro. Você nunca ouviu falar de alguém que do nada ganhou tanto dinheiro de presente do banco. Nada indica pra você que isso seja possível. E você não pode simplesmente escolher acreditar em algo diferente do que seu inconsciente diz. Você pode fingir que tem, falar para os outros que tem. Você pode tirar um printscreen do seu saldo, alterá-lo no Photoshop e olhar o quanto quiser para aquilo e ainda assim você não vai acreditar que tem aquele dinheiro. E muito menos irá agir como se tivesse.

É como se seu time, que vai muito mal, precisasse ganhar dez jogos seguidos e o líder do campeonato com 20 pontos de vantagem sobre o segundo colocado precisasse perder todos os jogos por três gols de diferença, para que seu time fosse campeão. Você pode desejar profundamente que isso ocorra e pode até sair por aí dizendo que ama seu time e que acredita de verdade nessa possibilidade que é matematicamente mais improvável que ganhar na loteria. Alguns mais apaixonados podem até acreditar mesmo ignorando todas as evidências e previsões (qualquer semelhança com teísmo não é mera coincidência) mas a grande maioria vai apenas dizer que acredita da boca pra fora apenas para mostrar apoio ao time.

Se você acredita em algum deus, você escolheu acreditar ou aquilo simplesmente chegou a você como uma sensação que você não sabe explicar direito e nem lembra como e quando foi? Talvez na sua infância ou em uma experiência transcendental. Repare que isso é bastante diferente de seguir a religião desse deus ou até mesmo viver de acordo com os preceitos que ele pode ter ditado ou escrito em tempos passados. Aí entraríamos no ramo da hipocrisia que nem vale a pena mencionar, pois rende muito pano pra manga. Quero focar aqui apenas no aspecto opcional de acreditar ou não em algo e em como isso é impossível. Você acredita ou não baseado em processos inconscientes dos quais não tem controle algum. Acreditar não é puramente (eu iria além, é pouquíssimo) racional.

Agora voltando ao aspecto modinha e o crescimento do número de ateus na internet, quanto a isso podemos produzir uma explicação mais plausível sem ter que recorrer a essa falácia da opção. O que ocorre é que as redes sociais, da mesma forma que tem apoiado o surgimento e a operação de organizações ativistas e mídias alternativas, virou também um estímulo para que muitos ateus saíssem do armário (sim, vou aproveitar a analogia já feita antes com o homossexualismo). Todos já eram ateus antes, mas nunca tiveram coragem de assumir isso em público ou até para si mesmos. Ao ver várias outras pessoas, inclusive amigos seus que possivelmente, até então, sequer sabiam que eram ateus falando abertamente de suas posições políticas e religiosas, tomaram coragem e simplesmente assumiram o nome feio de algo que sempre sentiram de alguma forma ou de outra.

Portanto, se existe alguma opção na história toda é a de se declarar ateu (e há toda uma sorte de motivos, alguns válidos e outros nem tanto, para que as pessoas assumam essa posição diante da sociedade), e não a de escolher, do nada, em um ou vários deuses pra descreditar. E mesmo que, daqui a um tempo, haja uma uma queda na taxa de crescimento do número de novos ateus ou até mesmo no volume dos debates e discussões em geral, isso não quer dizer que a modinha passou e agora todos estão voltando atrás em suas decisões, mas sim que passou o momento inicial, onde existe aquela explosão de expressão depois da voz presa depois em séculos de silêncio opressivo, pois finalmente se deu um espaço público e democrático onde todas as pessoas podem dizer o que quiserem sem medo de repressão política ou ideológica.

FONTE: BULE VOADOR http://www.bulevoador.com.br/2013/11/ateismo-modinha-internet/

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