Publicado por: Conselheiro Fnord | 07/11/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: A herdabilidade da inteligência: Não é o que você pensa


Diversity of the Mind

Uma das mais duradouras pressuposições sobre a natureza da inteligência humana acabou de ser seriamente desafiada.

De acordo com a tradicional teoria do investimento, a inteligência pode ser classificada em duas categorias principais: fluida e cristalizada. As diferenças na inteligência fluida refletiriam raciocínio inovador e preciso, enquanto diferenças na inteligência cristalizada refletiriam conhecimentos e habilidades previamente adquiridos. De acordo com essa teoria, a inteligência cristalizada desenvolve-se através da aplicação da da inteligência fluida em um corpo particular de conhecimentos.

Em termos da genética, esta história tem uma previsão muito clara: Na população geral na qual as pessoas diferem em suas experiências educacionais espera-se que a herdabilidade da inteligência cristalizada seja menor do que a herdabilidade da inteligência fluida. Essa teoria tradicional pressupõe que a inteligência fluida é altamente influenciada pelos genes e relativamente fixa, enquanto a inteligência cristalizada é mais fortemente dependente de habilidades adquiridas e oportunidades de aprendizado.

Mas essa história é realmente verdadeira?

EFigure-1.pngm um novo estudo, Kees-Jan Kan e colaboradores analisaram os resultados de 23 estudos independentes de gêmeos, conduzidos com amostras representativas, resultando em uma amostra total de 7.852 pessoas. Eles investigaram como os coeficientes de herdabilidade variam entre habilidades cognitivas específicas. O mais importante, eles avaliaram a carga cultural das várias habilidades cognitivas ao usarem a média da porcentagem dos itens dos testes que foram ajustados quando o teste foi adaptado para o uso em 13 países diferentes.

Por exemplo, aqui está a carga cultural dos sub-testes do teste de inteligência de Wechsler:

Eles obtiveram dois resultados principais. Em primeiro lugar, em amostras de adultos e crianças, eles descobriram que quanto maior for a carga de cultura, mais o teste estava associado com QI: *

Figure-2.png

Em segundo lugar, em adultos, os pesquisadores descobriram que, quanto maior a herdabilidade do teste cognitivo, mais o teste dependia da cultura. Os efeitos são de médio a grande porte, e estatisticamente significativos:

Figure-3-1024x567.png

Como você pode ver acima, testes altamente carregados culturalmente, tais como vocabulário, ortografia e informação tiveram coeficientes de herdabilidade relativamente altos, e também foram altamente relacionados ao QI. Como observam os pesquisadores, essa descoberta demanda explicação, já que é inconsistente com a história tradicional do investimento. O que está acontecendo?

Por que os testes mais culturalmente carregados têm os maiores coeficientes de herdabilidade?

Uma possibilidade é que a sociedade ocidental é um ambiente de aprendizagem homogêneo os sistemas escolares são todos iguais. Todo mundo tem as mesmas experiências educacionais. A única coisa que varia é a capacidade cognitiva. Certo. Provavelmente não.

A outra possibilidade é que a teoria de investimento tradicional esteja correta, e inteligência cristalizada (por exemplo, vocabulário, conhecimento geral) é cognitivamente mais exigente do que resolver os testes mais complexos de raciocínio abstrato. Para que isso seja verdade, os testes como o de vocabulário teriam que depender mais do QI do que a inteligência fluida. Parece improvável. Não está claro por que testes como os de vocabulário teriam uma maior demanda cognitiva do que os testes que são menos culturalmente carregados, mas cognitivamente mais complexos (por exemplo, testes de raciocínio abstrato). Além disso, esta teoria não fornece uma explicação para a herdabilidade do QI aumentar linearmente desde a infância até o começo da idade adulta.

Em vez disso, a melhor explicação pode exigir o abandono de alguns pressupostos mantidos por um longo tempo neste campo. Os pesquisadores afirmam que seus achados são melhor compreendidos em termos de covariância genótipo-ambiente, em que as habilidades cognitivas e conhecimentos dinamicamente alimentam-se uns aos outros. Aqueles com uma inclinação a se envolver em complexidade cognitiva tendem a procurar ambientes intelectualmente exigentes. Ao desenvolverem níveis mais elevados de capacidade cognitiva, eles também tendem a atingir níveis relativamente mais elevados de conhecimento. Mais conhecimento fará com que seja mais provável que eles irão eventualmente acabar em ambientes mais cognitivamente exigentes, o que facilitará o desenvolvimento de uma gama ainda maior de conhecimentos e habilidades. De acordo com Kees-Jan Kan e seus colegas, as exigências sociais influenciam o desenvolvimento e a interação de múltiplas habilidades cognitivas e conhecimentos, causando, assim, correlações positivas entre si, e dando origem ao fator de inteligência geral.

Para ser claro: estas descobertas não significam que as diferenças de inteligência são inteiramente determinadas pela cultura. Numerosos pesquisadores descobriram que a estrutura das habilidades cognitivas são fortemente influenciada por genes (embora nós não tenhamos a mais ligeira ideia de quais genes são consistentemente importantes). O que estes resultados sugerem é que há um papel muito maior da cultura, educação e experiência no desenvolvimento de inteligência do que as teorias tradicionais de inteligência pressupunham (existe mesmo essa conjugação, a pressupunham?). Pesquisadores da genética comportamental, que separam as fontes genéticas e ambientais de variação muitas vezes operam com o pressuposto de que o genótipo e o ambiente são independentes e não covariam. Estes resultados sugerem que eles muito assim o fazem.

Há uma implicação muito mais importante destes resultados, que eu seria negligente ao não mencionar.

Diferenças nos resultados dos testes de QI entre brancos e negros.

Em sua análise dos dados do exército dos EUA, o psicometrista britânico Charles Spearman notou que quanto mais um teste correlacionava-se com o QI, maior a diferença entre negros e brancos no teste. Anos mais tarde, Arthur Jensen veio com uma teoria sem reservas a qual ele referia-se como a hipótese de Spearman: a magnitude das diferenças entre negros e brancos nos testes de capacidade cognitiva é diretamente proporcional à correlação com os testes de QI. Em um artigo controverso, em 2005, Jensen juntou-se a J. Philippe Rushton para tentar convencer que isto prova que as diferenças entre brancos e negros devem ser de origem genética.

Mas essas descobertas recentes por Kees-Jan Kan e seus colegas sugerem exatamente o contrário: Quanto maior a diferença na capacidade cognitiva entre negros e brancos, mais a diferença é determinada por influências culturais. **

Como Kees-Jan Kan e seus colegas notam, os seus resultados lançam uma nova luz sobre o longo debate entre natureza versus criação. Claro, este estudo não é a última palavra sobre esse assunto. Certamente, precisa haver muito mais pesquisa olhando para o papel crucial de covariância genótipo-ambiente no desenvolvimento das habilidades cognitivas. Mas, pelo menos, esses resultados devem fazer você pensar duas vezes sobre o significado da frase herdabilidade da inteligência. Ao invés de um índice do quão genético um teste de QI é, é mais provável que, nas sociedades ocidentais onde as oportunidades de aprendizagem ocidentais diferem tão drasticamente umas das outras a herdabilidade esteja lhe dizendo o quanto o teste é influenciado pela cultura.

© 2013 Scott Barry Kaufman, Todos os direitos reservados.

* Ao longo deste post, sempre que eu uso o termo QI, estou me referindo ao fator de inteligência geral: tecnicamente definido como o primeiro fator derivado de uma análise fatorial de uma bateria de diversos testes cognitivos, representando uma amostra diversificada da população em geral, explicando a maior fonte de variação no conjunto de dados (normalmente em torno de 50 por cento da variância).

** Para os dados que mostram que as diferenças, entre brancos e negros, na capacidade cognitiva é maior nos testes altamente dependentes da cultura, eu recomendo a leitura do capítulo 4 da dissertação de doutorado de Kees-Jan Kan, The Nature of Nurture: The Role of Gene-Environment Interplay in the Development of Intelligence. [N.T. "A natureza da criação: O Papel da interação Gene-Ambiente no desenvolvimento da inteligência"]

Agradecimentos: Obrigado a Rogier Kievit para trazer o artigo a minha atenção, e a Kees -Jan Kan por sua gentil assistência ao revisar uma versão anterior deste post.


Crédito da imagem:
istockphoto.com

Sobre o autor: Scott Barry Kaufman é um psicólogo cognitivo interessado no desenvolvimento da i311.thumbnail.jpgnteligência e da criatividade. Em seu livro mais recente, Ungifted: Intelligence Redefined, ele apresenta uma nova teoria da inteligência humana, que ele espera ajudar todas as pessoas a realizar seus sonhos. Siga no Twitter @sbkaufman .

Original: The Heritability of Intelligence: Not What You Think

Fonte: Beautiful Minds Scientific American blogs

Autor: Scott Barry Kaufman

Tradução: Rodrigo Véras

Resumo do artigo original:

Para aprofundar o conhecimento sobre a natureza e criação da inteligência, examinamos como os coeficientes de herdabilidade variam de acordo com as habilidades cognitivas específicas tanto teórica e como empiricamente. Dados de 23 estudos com gêmeos (N combinado= 7852) mostraram que (a) em amostras de adultos, sub-testes culturalmente-carregados tendem a demonstrar maiores coeficientes de herdabilidade do que os sub-testes culturalmente reduzidos , e (b) em amostras de adultos e crianças, uma proporção da variância dos sub-testes compartilhada com a inteligência geral é uma função da sua carga cultural. Estes resultados exigem uma explicação, porque eles não se seguem a partir das teorias tradicionais de inteligência. Os resultados são consistentes com a nossa hipótese de que os coeficientes de hereditariedade diferem entre as capacidades cognitivas como resultado de diferenças na contribuição da covariância genótipo-ambiente. A constatação contra-intuitiva de que as habilidades mais herdáveis são as habilidades mais dependentes da cultura lança uma nova luz sobre o longo debate natureza x criação na inteligência.

  • Kan KJ, Wicherts JM, Dolan CV, van der Maas HL. On the Nature and Nurture of Intelligence and Specific Cognitive Abilities: The More Heritable, the More Culture Dependent. Psychol Sci. 2013 Oct 8. [Epub ahead of print] PubMed PMID: 24104504.

FONTE: BULE VOADOR http://www.bulevoador.com.br/2013/11/herdabilidade-inteligencia-nao-voce-pensa/


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: