Publicado por: Conselheiro Fnord | 11/07/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: AS VIRTUDES “CRISTÃS”


Se existe uma coisa que me irrita mortalmente é essa síndrome de criação do mundo que os cristãos exibem. Muitos deles acreditam que, antes de Cristo vir ao mundo e nos legar seus princípios éticos, vivíamos todos como bárbaros ferozes a quem faltava a mais elementar decência. Eles falam da humildade, da compaixão, do amor ao próximo e da caridade como se fossem “virtudes cristãs”, ou seja, como se o cristianismo as tivesse inventado. A pergunta que devemos fazer é: será que essas coisas já não existiam no mundo antes do aparecimento de Cristo?

Para quem já leu Confúcio, Lao-Tsé e os filósofos gregos, a resposta é fácil: existiam. Cinco séculos antes de Cristo, Sócrates deu uma bela demonstração de humildade quando pronunciou o seu célebre “só sei que nada sei”. Isaac Asimov, em um de seus ensaios, disse que estava farto de Sócrates, que ninguém pode não saber absolutamente nada. “Em questão de dias um bebê aprende a reconhecer a própria mãe”, escreveu ele, mal-humorado. O problema de Asimov é que ele fez uma interpretação demasiado literalista da máxima socrática. É claro que Sócrates não podia ser tão ignorante a ponto de não saber coisa alguma. No mínimo, ele sabia que se chamava Sócrates, que pertencia ao sexo masculino, que tinha uma esposa chamada Xantipa, um discípulo chamado Platão e outras filigranas desse gênero. Isto pode não ser muita coisa, mas já é o suficiente para invalidar a afirmação de completa ignorância. Portanto, não é razoável imaginar que um grande filósofo como Sócrates tenha desejado dizer o que Asimov supõe que ele disse. Devemos interpretá-lo com um pouco mais de sutileza.

Penso que a máxima socrática não é uma afirmação de ignorância total, mas uma referência ao fato consabido de que o conhecimento, enquanto aumenta em termos absolutos, decresce em termos relativos. Para ficar num exemplo prosaico: quando a ciência finalmente conseguiu provar a existência de átomos, o nosso cabedal de conhecimentos aumentou. Passamos a saber uma coisa que antes não sabíamos. Porém, muitas outras dúvidas surgiram a partir dessa descoberta: de que é feito o átomo? qual é a forma que ele tem? quantos átomos existem na natureza? que tipo de interações eles estabelecem,? etc. Quem se pergunta de que é feita uma mesa, tem apenas uma dúvida na cabeça. Mas quem sabe que a mesa é feita de átomos, tem muitas outras.

Acho que é nesse sentido que se deve entender a máxima socrática. Sócrates não estava sendo um fanfarrão ao dizer que nada sabia. Estava, ao contrário, traçando um limite para o conhecimento humano, reconhecendo que, por mais informações que tenhamos e descobertas que façamos, jamais poderemos saber tudo. Isto, para mim, é um exemplo de humildade.

Certa vez, durante uma entrevista com o cientista britânico Richard Dawkins, o apresentador Bill O’Reilly afirmou sarcasticamente que a humildade é uma virtude cristã (isso porque Dawkins afirmara que a ciência precisava ser humilde para reconhecer seus limites). Mas por que seria cristã e não socrática, se Sócrates veio ao mundo com cinco séculos de antecedência em relação a Cristo? Em ciência, a regra (mais defendida do que praticada, admitamos) não é premiar aquele que primeiro fez a descoberta? Por que em moral deveria ser diferente?

Mas, na verdade, seria tão injusto chamar a humildade de virtude socrática quanto o é se a chamarmos de virtude cristã. Isso porque, bem antes de Sócrates nascer, outros seres humanos certamente já haviam dado exemplos de humildade. Essa virtude admirável surgiu como fruto da nossa experiência coletiva, como resposta, após várias tentativas e muitos erros, aos problemas gerados pela convivência humana. A humildade, portanto, não é uma propriedade exclusiva de uma religião, de uma doutrina, de uma filosofia ou de uma pessoa, mas um patrimônio moral da humanidade. Que o cristianismo a tenha assimilado não dá aos cristãos o direito de se apropriarem dela. Isto seria um roubo.

Para reforçar meu argumento, permitam-me fazer algumas citações que demonstram a antiguidade de certas idéias que freqüentemente são consideradas cristãs:

1 – Não imponha aos outros aquilo que você não deseja para si próprio.

2 – Se todos no mundo praticassem o amor magnânimo (.) haveria ladrões ou assaltantes? Os clãs brigariam entre si? Os Estados se agrediriam?

3 – Aos bons, eu seria bom; aos maus, eu também seria bom, para torná-los bons. (.) Mesmo que um homem seja mau, seria correto abandoná-lo? Retribua a ofensa com a gentileza.

A primeira frase é de Confúcio, que nasceu em 551 antes de Cristo. A segunda é de Mo-Tzu, que, segundo a tradição, nasceu pouco depois da morte de Confúcio, em 479 antes de Cristo. A terceira é de Lao-Tsé, que tudo indica ter sido contemporâneo de Confúcio. Nelas podemos ver ensinamentos que muitos séculos mais tarde seriam repetidos pelo próprio Jesus. Eu poderia então fazer a mesma pergunta que fiz há pouco: por que essas virtudes deveriam ser chamadas de cristãs se elas já existiam muito antes de Cristo vir ao mundo? É por essas e outras que, apesar de ser ateu, não vejo muito problema em incorporar à minha ética pessoal alguns valores cristãos. É que eles não são realmente cristãos.

Autor: Rodrigo César Dias

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2013/07/as-virtudes-cristas/

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