Publicado por: Conselheiro Fnord | 28/05/2013

EM NOME DA GRANDE DEUSA DA DISCÓRDIA ÉRIS: Ateus e pagãos, vítimas do mesmo preconceito, precisam se unir


pagan-atheist

Observando-se as ladainhas preconceituosas que culpam a “falta de Deus” pelas desgraças que acontecem no mundo, concluímos que não dá para ignorar que os ateus não são os únicos atingidos por tais discursos credocêntricos que arrogam às religiões monoteístas o monopólio da moralidade. Eles não são os únicos que não acreditam no deus único dos preconceituosos que não aceitam a existência de ética fora da(s) religião(ões) de deus único. Há mais pessoas vítimas desse tipo de declaração intolerante: os pagãos, ao mesmo tempo irmãos de descrença monoteísta dos ateus e portadores de um sistema de crenças peculiar.

Ao falar de paganismo e pagãos, me refiro aqui respectivamente a qualquer religião não abraâmica que tenha raízes nas tradições politeístas da Antiguidade e da Alta Idade Média – incluindo-se também o hinduísmo, o xintoísmo e religiões ameríndias e africanas nativas – e aos seus aderentes. Geralmente a máxima “O nosso Deus é o mesmo”, dita por religiosos monoteístas, não se aplica a eles, dadas as fortes diferenças entre as divindades pagãs e os deuses únicos como o bíblico e o corânico.

Quando alguém culpa a “ausência de Deus” por problemas como a violência urbana e os crimes brutais, o tal Deus é geralmente o monoteísta, o abraâmico, a personalidade central de livros sagrados como a Bíblia, a Torá e o Corão, que fundamentam as religiões monoteístas mundiais, podendo ser o “mesmo” também de tradições sincréticas como a umbanda e o espiritismo. E muitas vezes, a depender das especificidades religiosas do discurso preconceituoso, é especificamente o bíblico, aquele envolto por toda uma teologia cristã, excluindo-se até o Alá das tradições islâmicas ou o Deus dos espíritas que não sincretizam tanto com o cristianismo.

Portanto, sempre que alguém explicita ou insinua que a não crença em “Deus” seria responsável pelas desgraças humanas, são afetados todos aqueles que não acreditam nele. E nisso se incluem tanto os ateus e agnósticos, descrentes em qualquer divindade, como os pagãos, que também não creem nesse “Deus” e, ao invés, manifestam crença em outras deidades.

Pagãos e ateus não acreditam em “Deus”. Os primeiros acreditam, ao invés, em seres superiores muito distintos dele, como A Deusa e O Deus wiccanos; Odin, Thor e cia. da tradição Asatrú; Zeus, Atena, Deméter e outros da Grécia Antiga; deuses celtas como Lugh, Dagda e Kernunnos; romanos como Júpiter, Diana e Ceres; orixás como Xangô, Exu e Iemanjá; kami como Amaterasu e Susanoo; egípcios como Osiris, Isis e Horus; outras deidades como Astarte, Cibele, Enlil, Baal, El, Tengri e Marduk; entre tantos outros que dependem da tradição abraçada pelo pagão. Suas personalidades são parcial ou totalmente diferentes do Javé da Bíblia ou do Alá islâmico, assim como suas propriedades teológicas.

Por isso faz sentido se um pagão que, por exemplo, crê em Dagda e outros deuses e deusas celtas se sente ofendido e ultrajado quando um cristão fundamentalista acusa a “falta de Deus no coração” de ser causa, digamos, da violência urbana. O politeísta em questão não tem esse “Deus” em seu coração, e sim Dagda, Lugh, Kernunnos e outros.

Voltando às semelhanças entre ateus e pagãos, uma outra característica que os une é a cada vez mais robusta militância pela autoafirmação como possuidores de suas crenças e descrenças e pelo direito ao respeito enquanto descrentes no deus único dos cristãos. Ambos lutam pela tolerância religiosa – exceto talvez os neoateus fanáticos. E isso torna ainda mais relevante que unifiquem suas bandeiras do respeito às diferenças. Além de sofrerem o mesmo preconceito dos cristãos fundamentalistas, militam pela mesma causa pró-tolerância.

E uma terceira semelhança, excluindo-se os ateus antiteístas, é a rejeição ao proselitismo. Costumam concordar que a espiritualidade religiosa ou a ausência dela são frutos da experiência de vida do indivíduo, que a abraça como uma conclusão a que chegaram ao longo de sua vivência sobre com qual crença se identificam mais, sem influência direta de evangelizadores (exceto alguns ateus, influenciados por discursos neoateístas).

Portanto, vale que se comece um diálogo sistemático entre os ateus e os pagãos, para que se unam enquanto pessoas que lutam pela causa única da tolerância religiosa, da liberdade de crença e descrença, do direito de viverem em paz sem serem acusados de promover desgraças no mundo em função de não acreditarem no deus único dos fanáticos que lhes apontam o dedo podre do preconceito.

Autor: Robson Fernando de Souza
Fonte: Consciencia.blog.br

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