Publicado por: Conselheiro Fnord | 15/05/2013

EM NOME DA DISCÓRDIA: Ateísmo X Religião – A Questão da Responsabilidade


Richard Dawkins costuma afirmar que o ateísmo não induz ninguém a cometer crimes. Em seu Deus, um delírio, vemo-lo argumentar: “Mesmo que admitamos que Hitler e Stalin tinham em comum o ateísmo, eles também tinham bigodes em comum, assim como Saddam Hussein. E daí? (…) O que interessa não é se Hitler e Stalin eram ateus, mas se o ateísmo influencia sistematicamente as pessoas a fazer maldades. Não existe a menor evidência disso”.

Dawkins às vezes erra, como quando diz que a religião é pior do que o abuso sexual, mas nesse caso específico acho que ele está coberto de razão. Deixem-me explicar o motivo.

Anos atrás, a revista Veja publicou uma notícia curiosa: a atriz americana Rene Russo foi convidada para atuar em um filme de ação – se não me engano Thomas Crown, a arte do crime – cujo roteiro previa cenas picantes de sexo. Como cristã, ficou em dúvida se isso era moralmente certo ou errado, e resolveu ler a Bíblia de cabo a rabo para saber o que Deus tinha a dizer sobre o assunto. Ao constatar – não me perguntem como! – que o livro sagrado do cristianismo não continha nenhuma proibição às cenas que deveria protagonizar, decidiu aceitar a oferta.

Suponha agora que, em vez de cristã, Russo fosse atéia. O que ela iria consultar?

Bem, você já deve ter observado que não existe o livro sagrado do ateísmo – ou deveria chamar de o livro profano do ateísmo? Nenhum livro tem para o ateu a mesma importância que a Bíblia tem para os cristãos, ou o Corão para os mulçumanos, ou a Torah para os judeus. Um ateu pode admirar a obra de Nietzsche, Sade, La Mettrie, Dawkins, Hitchens ou Dennett, mas nenhum deles a consulta da mesma forma que um cristão consulta a Bíblia, isto é, como se ali estivesse a palavra infalível de um ser perfeito, uma ordem que é preciso cumprir. Os ateus apenas buscam ali inspiração para os seus dilemas morais, e bem pode acontecer que rejeitem a proposta ética desses autores. Um cristão não poderia fazer isso, pois quem não se submete à autoridade de Deus está cometendo um pecado punível com o inferno. Mas um ateu que desse uma banana para a proposta ética de um Sade não incorreria em qualquer crime.

O fato é que não existe, em relação à ética, o que poderíamos chamar de posição oficial do ateísmo. O ateísmo não diz absolutamente nada sobre este assunto. Ele não manda atear fogo numa casa onde há uma família almoçando, nem manda salvar quem porventura estiver dentro de uma casa em chamas. Ele não manda assaltar a velhinha indefesa e lhe roubar a carteira, mas também não manda defender a velhinha que está sendo assaltada e tendo a carteira roubada. Ele não manda violentar uma criança, mas não diz que devemos tentar salvar uma criança que esteja sendo violentada. Quem acha que o ateísmo é imoral, que ele prega a violência e o desprezo pelas leis deve estar pronto para mostrar onde está o livro sagrado dos ateus e onde, no livro sagrado dos ateus, existe alguma norma moral.

É neste sentido que Dawkins afirma não ser importante saber se Stalin ou Hitler eram ateus. Ainda que fossem ateus (e Hitler não o era), seu ateísmo por si só não os teria levado a cometer as atrocidades que cometeram. Da mesma forma, ambos tinham bigodes, mas não foi o bigode que os tornou assassinos.
É possível defender a ideia[E1] de que o silêncio sobre a moral significa na prática uma autorização para o crime e que por esse motivo o ateísmo deve ser combatido. Mas, nesse caso, é preciso ser coerente e estender a mesma crítica a todas as formas de descrença, como a descrença em fadas, duendes, fantasmas, unicórnios, íncubos, súcubos, harpias, ciclopes, sereias e até mesmo naquele adorável velhinho que, no último mês do ano, presenteia as crianças com brinquedos… Se este critério for aceito, não acreditar em Papai Noel deveria ser visto com a máxima desconfiança e despertar toda sorte de suspeitas. A decência seria privilégio das crianças de tenra idade, se é que num mundo tão informatizado como o nosso ainda exista alguma que acredite em Papai Noel. Bem se vê como seria ridículo…

Existe, porém, o outro lado da moeda. Assim como o ateísmo não pode ser responsabilizado pelos crimes de um ateu, tampouco tem ele o direito de reivindicar algum mérito. Se um ateu, ao ver uma criança se afogando, atira-se na água para salvá-la da morte com risco de sua própria vida, tal ato de sacrifício pelo próximo não deve ser atribuído ao ateísmo, mas apenas ao ateu que o praticou. Se o ateísmo tivesse um livro sagrado com a norma moral “tu deves salvar seres humanos em perigo, mesmo que isso acarrete a tua morte”, aí, sim, poderíamos transferir o mérito do sujeito para a sua descrença. Mas não é esse o caso. Parafraseando Dawkins, poderíamos dizer o seguinte: Patch Adams e Drauzio Varella são ateus, mas não é o ateísmo que os faz agir de forma solidária e caritativa. Da mesma forma, ambos usam óculos, mas também não é isso o que os torna seres humanos decentes.

O caso da religião é bastante diferente, porque a religião, ao contrário do ateísmo, possui um livro sagrado recheado de normas morais, algumas boas, outras más. Isso significa que ela pode, por um lado, reivindicar os méritos pelas boas ações de seus adeptos, mas, por outro lado, deve também se responsabilizar por algumas das más ações que eles praticam. Refiro-me aqui especificamente aos atos praticados pelos religiosos que são estimulados pelos livros sagrados, porque nem tudo o que aqueles fazem é legitimado por esses. Se um cristão assalta um banco ou esquarteja o próprio filho, seria tolice da minha parte atribuir esses crimes ao cristianismo, uma vez que em nenhuma parte do Novo Testamento existe uma ordem divina para que tais ações sejam praticadas. Em contrapartida, quando um cristão age de forma preconceituosa em relação aos homossexuais, acho que não apenas podemos, mas que é nosso dever atribuir essa mácula ao cristianismo, uma vez que a Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, condena explicitamente o amor entre pessoas do mesmo sexo.

O menos ofensivo que se diz ali sobre o tema é que isso é abominável.

O mundo religioso, no entanto, é estranhamento assimétrico. Os adeptos do cristianismo reivindicam para ele uma infinidade de méritos históricos, como, por exemplo, o de ter inspirado a Declaração dos Direitos do Homem assim como a democracia a partir da noção[E2] de que todos os homens são iguais perante Deus. Acho isso realmente justo, já que a Bíblia realmente contém essa valiosa e mentirosa ideia. Porém, sempre que se denunciam as falhas históricas do cristianismo, como a sua cumplicidade com o genocídio dos judeus, por exemplo, aí os seus adeptos inventam toda sorte de desculpas para desonerá-lo de qualquer responsabilidade, como se a Bíblia não contivesse numerosos trechos de incitação ao ódio contra os judeus. Daniel Jonah Goldhagen, em seu livro A igreja Católica e o holocausto, contabiliza, em apenas cinco livros do Novo Testamento, entre os quais os quatro evangelhos e os Atos dos apóstolos, 450 versículos anti-semitas.

Há numerosos exemplos dessa conveniente assimetria. Diz-se, por exemplo, que o judaísmo e o cristianismo ajudaram a moldar a civilização ocidental, mas nem cristãos e nem judeus gostam de admitir que os conflitos na Terra Santa têm motivação religiosa. As motivações são sempre políticas, sociais, econômicas, territoriais ou sei lá mais o quê. Os muçulmanos tiveram grande contribuição para o renascimento intelectual da Europa no século XVI ao reintroduzir as obras dos filósofos gregos no ocidente. Mas os terroristas muçulmanos que praticaram os atentados de 11 de setembro não foram motivados pela crença desmiolada de que seriam recebidos por 72 virgens no paraíso. As suas motivações foram políticas, sociais, econômicas…

Autor: Rodrigo César Dias
Editor: Cicero Escobar

FONTE: The post Ateísmo X Religião: A Questão da Responsabilidade appeared first on Bule Voador.

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