Publicado por: Conselheiro Fnord | 18/04/2013

MUNDO DISCORDIANISTA e FNORDS: ÓTIMO TEXTO: CONTROLE DE FRAMES


FONTE: http://lucianoayan.com/2013/04/18/glossario-frame/

VERBETE "FRAME" POR LUCIANO AYAN

Após ter escrito o verbete Controle de Frame, falando de uma das metodologias mais importantes no contexto deste blog, senti que precisava ir para um nível mais básico ainda, isto é, os próprios frames.

Se existe o controle de frame (que é a ressignificação estratégica), há algo a ser controlado. Este é o frame.

Enquanto Richard Dawkins desenvolveu sua teoria dos memes, eu vou em direção oposta, e utilizo o conhecimento de vários autores, como Erving Goffman e George Lakoff, em uma abordagem praticamente oposta à de Richard Dawkins: dos frames.

Enquanto os memes de Dawkins são estruturas que não possuem existência material, mas, segundo ele, são selecionadas por mecanismos da seleção natural (isto é, um mingau sem sentido, pois a seleção natural só atua sobre organismos), os frames são estruturas que existem no cérebro humano. A seleção natural atua sobre nós, animais humanos, assim como atua sobre as outras espécies. Os frames que estão em nossa mente serão mais ou menos úteis para a nossa sobrevivência, ou mesmo a sobrevivência dos nossos genes, de nossa espécie, ou dos grupos de que fazemos parte.

Lakoff define os frames da seguinte forma:

Frames são estruturas mentais que moldam a maneira pela qual nós vemos o mundo. Como resultado, elas moldam as metas que ambicionamos, os planos que fazemos, a maneira como agimos, e o que conta como um resultado bom ou mal de nossas ações.

Os frames, embora complexos à primeira vista, são mais simples do que parecem. Desde que usemos os “frames” adequados para a explanação.

Mais a partir de Lakoff, na mesma obra:

Nós não vemos os frames, que são aquilo que os cientistas cognitivos definem como “inconsciente cognitivo”. São estruturas em nossos cérebros não acessíveis de forma conscientes por nós, mas são conhecidas por suas consequências: as formas que racionalizamos o que sentimos, e o que conta como senso comum.

Palavras se relacionam a frames conceituais. Quando você ouve ou lê uma palavra, há um frame em sua mente que vai relacionar sensações específicas a essa palavra. Qualquer palavra que você ouve, ativa um frame. Aliás, ações dos outros, percebidas por você, também ativam frames. A visualização de uma imagem irá ativar outros frames. Sempre que você recebe qualquer tipo de informação do mundo exterior, um frame (ou mesmo uma coleção de frames) é ativado em seu cérebro.

A ativação ocorre a partir das sinapses, que fazem a comunicação entre os neurônios. As informações oriundas do mundo exterior são “sentidas” a partir dessas sinapses, que “conectam” a informação recebida com sensações que temos, resultantes não só da experiência que possuímos como também de nossos instintos naturais.

Um exemplo simples. Imagine duas expressões: “rosa” (no sentido da flor) e “barata” (no sentido do inseto). Na mente da maioria das mulheres, esses conceitos estão ligados a sensações, positivas no primeiro caso, e negativas no segundo. Quando a garota ouve tanto uma expressão como outra, os frames que ela possui são ativados. Mas se você jogar uma barata em cima dela, ou dar-lhe uma flor, também ativará os mesmos frames, e com muito mais intensidade. Até por que a informação vinda do mundo exterior não é apenas conceitual, mas agora também uma ação. Assim, se você quiser agradar sua namorada sabe a diferença entre jogar uma barata em cima dela (ou mostrar-lhe a imagem de uma barata), ou dar-lhe uma flor (ou falar de flores). Os frames ainda estão na mente dela (e são ativados pela informação do mundo exterior), através das sinapses fazendo a comunicação entre os neurônios.

Assim como existem bons e maus frames, para o relacionamento amoroso, ocorre o mesmo para qualquer interação humana.

O que pode parecer simplório, no entanto, se observado pela ótica da dinâmica social começa a se tornar um conhecimento “maquiavélico” a primeira vista, mas simplesmente óbvio se avaliarmos profundamente a questão em uma análise multidisciplinar obtendo insights de áreas como propaganda, psicologia cognitiva, psicologia linguística, engenharia social, PNL e várias outras.

Vejamos agora algumas palavras: “ciência”, “progresso”, “pessimismo”, “tolerância”, “justiça”, “liberdade”, “razão”, “conservação”, “mudança”, etc.

Quando não se olha pela perspectiva dos frames, temos uma percepção normalmente um tanto ingênua sobre ideologias e filosofias que alegam lutar por quaisquer dessas palavras ou rótulos. Mas, pela ótica de uma ciência dos frames, começamos entender cada uma dessas palavras como conceitos que podem, intencionalmente ou não, ativar determinados frames em públicos específicos. Claro que isso não significa que todas as pessoas possuem os mesmos frames. Não seriam algumas ideologias apenas invólucros para a ativação de frames que beneficiem estes ideólogos?

Claro que em relação a uma mesma informação externa, nem todos os frames individuais são iguais. Por exemplo, imagine um sujeito que teve toda a família morta na explosão da bomba atômica em Hiroshima, e possui um trauma em relação à ciência e às descobertas científicas. Provavelmente, o uso da expressão ciência não ativará um frame positivo nele. Mas com certeza a maioria da população terá ativado em si um frame positivo. Atenção: em ambos os casos, estas pessoas podem refletir sobre a informação, e, através de suas lembranças, ativar novos frames, que podem ser positivos ou negativos. Isso que, neste momento, nem vou entrar na questão das hierarquias de frames, e nem na diferença entre frames de superfície e frames profundos.

Um leitor perguntou se uma cosmovisão seria um frame em nível individual. Não, uma cosmovisão é um agrupamento de conceitos, que ativam uma coleção de frames dentro do indivíduo.

A partir do momento em que se compreende o poder explicativo de uma análise dos frames, passamos a investigar o discurso de outra forma. Disciplinas como criticismo retórico e análise do discurso dão sustentação a uma análise cruzada envolvendo psicologia evolutiva, psicologia social e diversas outras áreas para pesquisarmos a relação entre informação e frames.

Daí em diante, passamos a ler conteúdo filosófico, político ou ideológico, por exemplo, com outro olhar. Há alguns casos em que o discurso é realmente ruim, mas seus proponentes parecem especialmente inteligentes ao escolherem conceitos ou agrupamento de conceitos que ativam os frames adequados no público.

O maior exemplo é o dos esquerdistas, que usam expressões como “progressista” ou “liberal” (para definirem a si próprios), enquanto a direita, em sua maior parte usa a expressão “conservador”. Claro que para um leitor de Russel Kirk, o conceito “conservador” é positivo, mas para quem não conhece a literatura de filosofia conservadora, o frame é negativo. Já os conceitos “progressista” ou “liberal” na maioria das vezes ativarão frames positivos na maior parte do público. Não seria uma vantagem para a esquerda o fato de eles terem, historicamente, escolhido conceitos para controlarem o frame?

Não é o momento agora de falarmos sobre o poder dos frames profundos, mas posso antecipar que aquele que conseguiu ativar frames profundos e positivos da plateia, não precisará mais sequer argumentar. Enquanto isso, aquele que sequer tem seu discurso pronto a ativar os frames positivos da plateia, mesmo que traga os melhores argumentos, falará para as paredes. Hoje em dia, aliás, eu posso me rotular, dentre outras coisas, como um cientista político que divulga informações para grupos (todo o conjunto da direita, contra a esquerda, e todo o conjunto de religiosos ou não humanistas, contra os neo-ateus e demais humanistas) que viviam perdendo a guerra de frames para seus oponentes.

Quando você entra no debate argumentativo, mas ignorou o controle de frame (que foi ganho pelo seu oponente), significa que você colocou o exército para fazer uma barricada nos portões da cidade, mas o inimigo já invadiu o castelo, tendo degolado o rei e estuprado a rainha.

Defendo, confiantemente, que o estudo dos frames é um estudo da essência humana, mas também o estudo de como podemos ser enganados, e de como podemos deixar de sê-lo. Há uma sensação de “vazio”, no início, ao sentirmos a enorme vacuidade de grande parte do conhecimento filosófico já criado, como também de toda aquela empulhação dos discursos políticos. Mas após a sensação de perda passar, como passou comigo, posso dizer que hoje enfim consigo reagir melhor em relação às informações no contexto dos debates e das guerras políticas.

Creio que agora já é possível que você compreenda claramente o que é um frame, e por que é tão importante controlar o frame nos debates.

COMENTÁRIO DISCORDIANISTA:

O Conceito "Frame" é muito similar ao conceito das "Grades" conforme descrito no PRINCIPIA DISCORDIA (Página 00049):

AQUI SEGUE UM POUCO DE PSICO-METAFÍSICA

Se você não liga para filosofia, é melhor pular isso.

O Princípio Anerístico é aquele de APARENTE ORDEM; o Princípio Erístico é aquele de APARENTE DESORDEM. Tanto ordem quando desordem são conceitos criados pelo homem e são divisões artificiais do CAOS PURO, que é um nível além do que o nível de criação de distinções.

Com nosso aparato de criar conceitos, que chamamos "mente",nós olhamos para a realidade através das idéias-sobre-a-realidade que nossas culturas nos dão. As idéias-sobre-a-realidade são erroneamente rotuladas de "realidade", e pessoas não iluminadas sempre ficam perplexas pelo fato de que outras pessoas,especialmente outras culturas, vêem a "realidade" de uma maneira diferente. São somente as idéias-sobre-a-realidade que diferem. A realidade Real (Verdadeira com V maiúsculo) é um nível além do nível de conceito.

Nós olhamos para o mundo através de janelas nas quais foram desenhadas grades (conceitos). Filosofias diferentes usam grades diferentes. Uma cultura é um grupo de pessoas com grades bastante similares. Através de uma janela nós vemos caos, e relacionamo-lo aos pontos na nossa grade, e assim entendemos ele. A ORDEM está na GRADE. Este é o Princípio Anerístico.

A Filosofia Ocidental preocupa-se tradicionalmente em contrastar uma grade com outra grade, e juntar grades na esperança de encontrar uma perfeita, que vai retratar toda a realidade, e vai, portanto, (dizem os ocidentais não-iluminados) ser Verdadeira. Isto é ilusório, é o que nós Érisianos chamamos de ILUSÃO ANERÍSTICA. Algumas grades podem ser mais úteis do que outras algumas mais agradáveis do que outras, etc., mas nenhuma pode ser mais Verdadeira do que nenhuma outra.

DESORDEM é simplesmente informação não relacionada vista através de alguma grade particular. Mas, como "relação", não-relação é um conceito. Macho, como fêmea, é uma idéia sobre sexo. Dizer que macheza é "ausência de feminilidade", ou vice e versa, é uma questão de definição e metafisicamente arbitrária. O conceito artificial de não-relação é o PRINCÍPIO ÉRISIANO.

A crença de que "ordem é verdadeira" e desordem é falsa, ou de alguma outra forma errada, é a Ilusão Anerística. Dizer o mesmo da desordem é a ILUSÃO ERÍSTICA. O ponto é que a verdade (v – minúsculo) é uma questão de definição relativa à grade que umas pessoas está usando no momento, e a Verdade (V -maiúsculo), realidade metafísica, é totalmente irrelevante para as grades. Pegue uma grade, e através dela algum caos parece desordenado e outro aparenta desordem. Pegue uma outra grade, e o mesmo caos vai aparecer ordenado e desordenado de forma diferente.

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