Publicado por: Conselheiro Fnord | 11/03/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: O alvorecer dos novos agnósticos


O alvorecer dos novos agnósticos

do Luciano Ayan

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Quando Sam Harris lançou seu Atheist Manifesto em 2005, um ano após o lançamento de seu A Morte de Fé, ele queria sedimentar o que havia criado: o neo-ateísmo. Na verdade, até alguns dos próprios neo-ateus assumiram o rótulo, como Victor Stenger em The New Atheism: Taking a Stand for Science and Reason. O movimento se solidificou definitivamente em 2006, com o lançamento de Deus, um Delírio, de Richard Dawkins.

Por serem baseados em uma série de truques retóricos, todos extremamente desonestos, e uma propaganda de ódio de baixíssimo nível, os neo-ateus começaram a queimar o filme não só de ateus, como também de agnósticos. Não raro se apresentavam em público como representantes de todos ateus e agnósticos. Mas será que todos os ateus e agnósticos de fato gostariam de ficar associados a eles? Dificilmente.

Agnósticos são, em muitos casos, figuras carimbadas. Não raro destoam da maioria por seu estilo pouco habitual no trato das questões metafísicas. Um agnóstico tende a ter prazer de não tomar posições em questões que não permitem uma resposta certa, e ao mesmo tempo desafia aqueles dos dois lados da questão que alegam ter certeza.

Antes, revisemos um pouco a terminologia.

Opções como ateísmo ou teísmo não são mutuamente auto-excludentes em relação a agnosticismo ou gnosticismo. Um ateu pode ser agnóstico, assim como gnóstico, assim como um teísta também pode sê-lo. Pelo fato de que a crença em Deus geralmente é explicada, pelas escrituras, como algo que não deve ser questionado, a tendência é que existam menos teístas agnósticos do que ateus agnósticos. Isso leva a confusão de alguém achar que, ao tratar de questões ateístas, está tratando de questões agnósticas.

Se alguém diz Eu não consigo saber se Deus existe, mas acredito nele, temos um teísta agnóstico. Um ateu agnóstico diria algo similar: Eu não consigo saber se Deus existe ou não, mas optei por não acreditar em sua existência.

Na introdução do texto An Agnostic Manifesto, de Ron Rosenbaum, ele diz a frase que resume todo o agnosticismo: Ao menos nós sabemos o que não sabemos. Em gestão do conhecimento, ter ciência do quanto não sabemos (e também do que não podemos saber) é fundamental, pois priorizaremos tanto a busca do conhecimento que não temos, como também não focaremos no conhecimento que não é possível obter.

Rosenbaum, ao reviver o termo neo-agnosticismo (utilizado por Robert Anton Wilson), provavelmente o faz para responder ao neo-ateísmo, que está dando mal nome não só aos ateus, como também a agnósticos.

Rosenbaum diz:

Eu não iria tão longe dizendo que existe um novo agnosticismo prestes a surgir. Mas eu acho que é o momento para um novo agnosticismo, um que desafie os neo-ateus. Na verdade, os agnósticos vêem o ateísmo como um teísmo tanto um credo com base em fé como as mais ortodoxas variações da religião.

Muitos ateus podem se incomodar, embora isso não ocorra comigo, pois eu sou um ateu agnóstico e reconheço isso. E é fato que tanto teísmo como ateísmo são apostas de fé, e, que portanto, não se deve apegar muito à elas no que diz respeito a tentar convencer os descrentes, tanto do teísmo como do ateísmo.

Tecnicamente, é claro que um ateu agnóstico que tende a não se apegar muito ao seu ateísmo pode se tornar revoltado com a religião e fazer campanha contra ela. Mas, nesse caso, ele está fazendo isso por causa de seu humanismo, geralmente radical, e não por causa do agnosticismo.

O agnosticismo deveria levar alguém à posição lógica de, em caso de questões para as quais não temos resposta, não ficarmos gastando um tempo excessivo tentando enfiar nossa resposta na goela dos outros.

Rosenbaum conta que foi chamado de causador de problemas por Terry Eagleston, que usava um discurso misticóide como aquele no filme O Segredo. Mas, da mesma maneira, ele é chamado de causador de problemas por ateus mais radicais, que não suportam ver suas certezas serem questionadas.

Uma citação de Thomas Huxley é muito convenientemente relembrada por Rosenbaum, e faço questão de adicioná-la aqui. Aqui, Huxley nos explica o princípio por trás do agnosticismo:

Este principio pode ser exposto de várias maneiras, mas todas elas se concentram em um único princípio: que é errado para um homem dizer que ele tem a certeza da verdade objetiva de qualquer proposição a menos que ele consiga produzir evidência que logicamente justifique sua certeza.

Usando este princípio, Rosenbaum desafia ateus mais empolgados questionando: Por que existe algo ao invés de nada?. Em geral, os neo-ateus respondem-lhe com fúria.

Ao colocar as certezas dos neo-ateus na parede, Rosenbaum chegou à conclusão de que o agnosticismo precisa se desvencilhar destes novos religiosos políticos.

Um novo agnosticismo, que é tão distante das vertentes mais fanáticas da religião, como do novo fanatismo ateísta (que, é claro, não representa todos os ateus) se torna mais do que urgente.

FONTE: http://lucianoayan.com/2013/03/10/o-alvorecer-dos-novos-agnosticos/

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