Publicado por: Conselheiro Fnord | 01/03/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: Max Weber – Deus muda com o tempo?


Max Weber – Deus muda com o tempo? E se mudar, como ficam os movimentos seculares e humanistas?

do Bule Voador de Daniel Oliveira

Portrait of Max Weber

Max Weber em 1894. Domínio Público.

O mundo é dinâmico e se transforma numa velocidade cada vez mais rápida. Que tipo de sociedade surgirá quando este ciclo de transição se completar e uma nova sociedade, completamente diferente daquelas iniciadas nos séculos XIX e XX, surgir? Se as bases conceituais dos movimentos seculares e humanistas apareceram nestes séculos, quais são os desafios para estes daqui para frente? Uma nova concepção de religião surgirá? Um novo Deus se consolidará?

Para responder a essas questões, vale rever a obra de Max Weber, sociólogo alemão do final do século XIX. Weber lançou-se sobre os alicerces, até então imaculados, de quase todas religiões para estudá-las. Encontrou alianças bastante terrenas e obteve do protestantismo a confissão secreta de sua conexão política e de seu pacto espiritual com o capitalismo.

Book cover of

Dotado de raro rigor científico, sua principal obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, até hoje é ferramenta capaz de descrever as sociedades contemporâneas. É um livro fundamental na cabeceira da cama de quem quer entender os acordos que as religiões fizeram para sobreviver até o nosso tempo.

Weber se propôs a responder a seguinte questão:

Por que as nações mais ricas e desenvolvidas do mundo eram nações protestantes e seculares? Por que os lideres do mundo dos negócios e proprietários de capital, assim como dos níveis mais altos da mão-de-obra qualificada eram, preponderantemente protestantes?

Embora em uma época onde já imperavam a frieza racionalista da ciência e o cálculo do investimento, sem espaço algum para o “encantamento” da fé, Weber foi buscar a resposta aonde poucos iriam: nas religiões.

Dito de outra forma, se tratava de explicar por que as nações protestantes haviam atingido um sucesso maior na organização racional das esferas econômica, política, social e da produção artística do que as nações católicas? Seria um ato suicida propor esta questão até mesmo nos dias de hoje. Mas, para ele, nada determinava mais a conduta ética e moral de um indivíduo do que a religião. “Leis não obtém semelhante obediência”. (Sic).

Para responder, Weber foi a fundo no estudo do protestantismo e suas vertentes: o calvinismo, o luteranismo, o anglicanismo e o pietismo. Mostrou como que a mais ascética delas – o puritanismo – foi fundamental na formação da conduta ética e moral dos novos homens de negócios. Ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, estes homens vinham obtendo lucros vultosos com suas atividades mercantilistas, pré-capitalistas e pré-industriais. No entanto, para este pré-burguês o céu católico não estava aberto, pois para quem acumulava capital, o seu destino era a danação.

A ética medieval católica glorificava a mendicância e seus ideólogos mendicantes. Vide São Francisco de Assis. Foi este mesmo tipo de gente que veio para o Brasil catequizar índios. Os jesuítas, soldados da contra-reforma, propagadores do atraso, foram os mais perniciosos formadores de nossa cultura.
Quanto àqueles homens de negócios, de duas uma: ou abandonavam a atividade que lhes propiciava crescimento econômico ou mudavam a religião. A opção foi moldar o catolicismo à nova atividade econômica, fazendo surgir uma “nova religião”.
A novidade foi o uso engenhoso de uma concepção divina da ideia de “vocação para o trabalho”. Na nova teoria, esta vocação era dada aos homens por Deus. Para o puritano, descobrir sua vocação para o trabalho e executá-la com ética, era o meio de agradar Deus e garantir a salvação. Até hoje, se verifica nas sociedades protestantes uma valorização ao trabalho em uma dimensão que não se percebe nas sociedades de formação católica.
Caso um puritano descobrisse que sua vocação lhe propiciava riqueza, conquanto que obtida através de meios éticos e seguisse uma vida ascética longe da luxúria, mesmo rico, um espaço no céu estava reservado ao lado de Deus.

“Se Deus assim o quis, deveis trabalhar para serdes rico para Deus, e não para a carne ou para o pecado (Sic.)”.

Negar esta riqueza significava “negar ser o servo de Deus”.
Da mesma forma, se a vocação do indivíduo fosse ser um sapateiro e este exercesse a profissão com ética e seguisse uma vida ascética, assim como o rico, um espaço estava garantido ao lado de Deus. O fundamental era descobrir tal vocação e segui-la.

O ascetismo secular do protestantismo libertava moral e eticamente aqueles homens à aquisição de bens, à obtenção do lucro, à cobrança de juros e à acumulação de capital. Mas, ao preservar a noção católica de pecado da acumulação e da luxuria, direcionou o acumulo para novos investimentos. Súmulas religiosas explicavam isto aos fiéis. Ora, embora contida em uma súmula religiosa, isto nada mais era do que uma cartilha com o ABC da atividade capitalista: acumular e reinvestir.

Como se vê, não se trata de dizer que foi a doutrina ética pregada pelo protestantismo que provocou uma conduta capitalista no puritano. Mas, sim, que as recompensas que eram atribuídas àquela conduta é que acabaram se constituindo em um ethos nos indivíduos. E foi justamente este ethos que fomentou a atividade capitalista. Ele fez movimentar a roda da economia, deu o start no motor, entrou no “espírito” de capitalismo. Assim, esta nova religião “glorificou” a exploração capitalista e o industrial podia dormir melhor, pois ele apenas estava seguindo sua vocação divina.

Pode-se imaginar como esta religião encontrou adeptos entre os industriais ingleses de Glascow, Lancshire e Manchester, entre homens como o financista Nathan Meyer Rotchild, ou o arguto Sir William Peny, ou a família de industriais Stamarty, ou quase todos frequentadores do jardim de Kensington.

O capitalismo, em seu estágio atual, não necessita mais desta lenha religiosa. Porém, outrora, ele só pode se desenvolver e quebrar os entraves medievais graças à sua aliança com Deus. Esta comunhão acabou determinando o estilo de vida de todos que nasceram nas sociedades ocidentais. E como diz brilhantemente Weber,

“e continuará determinando até que a última tonelada de combustível seja gasta”.

Weber é a chave para se entender o sucesso dos Estados Unidos como nação: fugindo da perseguição da contra-refoma, os puritanos, a maioria Quakers, foram para New England (a “Nova Inglaterra”) fundar uma nação de protestantes. Passados cinco séculos, o puritano transformou aquela ex-colônia na maior potência capitalista e tecnológica jamais vista na história da humanidade.

Talvez esteja aí a explicação do porque no Brasil aquele que enriquece, muitas vezes, é mal visto pela sociedade. É a culpa católica do lucro. Nos Estados Unidos, o homem que se torna um empresário é valorizado como alguém que pode gerar riqueza social para os demais.
Entre os fundadores daquela nação do “self-made-men” (aquele que “se faz” sozinho), havia vários puritanos: Thomaz Jefferson, Benjamin Franklin, George Washington e Betsy Ross (alegadamente a costureira da primeira bandeira americana), só para citar quatro. Já entre os fundadores da nossa nação, está uma maioria de enraizada fé católica.

O vento soprou torto, e trouxe naus erradas para os trópicos.
Os movimentos seculares e humanistas devem estar de olhos abertos para qualquer alteração no padrão do combustível – quem os detém e – que alimenta as sociedades contemporâneas. Uma mudança pode significar o surgimento de uma nova ordem econômica, social e política, trazendo com ela um novo sujeito da história. E, assim como no passado, este sujeito moldará Deus e uma religião à sua conveniência.

Autor: Alexandre Ferreira

FONTE: http://www.bulevoador.com.br/2013/03/max-weber-deus-protestantismo-capitalismo/

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