Publicado por: Conselheiro Fnord | 22/02/2013

MUNDO DISCORDIANISTA: Robert Anton Wilson, o papa do neo-agnosticismo e uma inspiração fundamental


Robert Anton Wilson, o papa do neo-agnosticismo e uma inspiração fundamental

por Luciano Ayan

Uma capacidade que adquiri, baseado em dicas de autores como Robert Anton Wilson, foi a de ler materiais contraditórios, e, diante destas contradições, me tornar capaz de absorver conteúdo tanto de um lado como de outro.

Uma das máximas de Robert Anton Wilson era: ninguém pode estar errado em absolutamente tudo. Segundo ele, adotar esta perspectiva poderia nos ajudar a aprender muito, até com aqueles que consideramos nossos inimigos.

Hoje em dia, noto muitas diferenças entre a postura de Robert Anton Wilson (também chamado de RAW por muitos de seus leitores) e a minha, mas isso não muda o fato de que a lição essencial dele foi absorvida em meu subconsciente e, reavaliando retroativamente, vejo que não posso negar RAW como um dos autores influenciadores de parte do que escrevo, ainda que eu não concorde com alguns de seus paradigmas centrais, em especial o transhumanismo, que é uma forma mais extrema de humanismo. Mas lembrando de novo: um dos métodos de RAW era o aprendizado com a leitura de materiais contraditórios, através da qual podemos aprender inclusive com nossos oponentes. Esse método é uma de minhas fontes de inspiração.

Em Gatilho Cósmico, RAW nos dá uma lição a respeito de uma forma de ceticismo que nos relembra os primórdios de Pirro. Na introdução de Gatilho Cósmico, RAW se defendia de críticos, representados tanto por alguns teístas mais extremados como alguns ateus fundamentalistas, afirmando: Eu não acredito em absolutamente nada.

Todavia, a obra que se tornou um dos gatilhos para minha investigação em relação aos céticos de Sagan (e adeptos de Randi), foi A Nova Inquisição, lançada em 1986.

Neste livro, RAW tem uma proposta muito simples: atacar o pseudo-ceticismo de céticos da CSICOP e outras organizações de perseguição aos paranormais. Estas organizações utilizavam o rótulo de representantes da ciência, para, enfim, conseguir lançar seus oponentes na espiral do silêncio.

Ao longo das quase 300 páginas de A Nova Inquisição, RAW defende que adeptos de misticismos e ciências não-tradicionais (como a homeopatia, geralmente qualificada como pseudo-ciência) sejam tratados com caridade, pois não é possível que todos estejam sempre errados em tudo. Ele defendia que nem tudo oriundo destas pessoas é fraude, ao contrário do que alegavam Martin Gardner e James Randi. Diferentemente de RAW, não tenho interesse algum em defender paranormais, mas se um paranormal se sentir coagido por fraudes de um cientificista, poderá usar meu modelo de ceticismo político para desmascarar o possível fraudador.

Em A Nova Inquisição, RAW tencionava designar certos hábitos de repressão e intimidação que, atualmente, estão se tornando cada vez mais lugares-comuns na comunidade científica. Seu alvo era evidente: os membros da CSICOP e todos aqueles que diziam representar a ciência, em um ataque contra UFOs e paranormais de todo tipo.

RAW também criou o termo novo agnosticismo (também já chamado de neo-agnosticismo), que seria

uma atitude da mente que previamente fora denominada modelo agnóstico, que aplica esse princípio agnóstico não somente ao conceito de Deus, mas às ideias de todos os tipos em todas as áreas do pensamento e da ideologia.

Enfim, o que ele chamou de neo-agnóstico era o que chamaríamos de um cético no estilo pirrônico. Mas pode-se supor que RAW criou um novo termo para fugir do rótulo cético, que na época foi falsamente usurpado por anti-paranormais, que, na verdade, eram usuários da rotina cético universal.

Uma das principais passagens de A Nova Inquisição é esta:

Se estivermos completamente hipnotizados por um túnel de realidade, podemos até nos tornar, em termos convencionais, um tanto quanto loucos. Em tal estado de loucura, podemos até queimar livros que contém heresias contra nossos ídolos ou falsificar as informações para sustentar nossos preconceitos, ou nos acharmos compelidos a explicar a crescente quantidade de informação discordante, acusando diversas conspirações amorfas de terem alterado os dados, ou podemos até nos tornar sinceramente convencidos de que qualquer indivíduo que vê, ouve, sente o cheiro ou o gosto de qualquer coisa inconsistente com nossos ídolos estará alucinando.

Este tipo de raciocínio foi bastante útil para fornecer a ideia de que, se observássemos as coisas pela ótica da dinâmica social (incluindo grande parte do material da psicologia social, em especial autores como Stanley Milgram, Erving Goffman, Kurt Lewin, Serge Moscovici e outros), muito provavelmente encontraríamos elementos interessantes a respeito de como o ser humano aceita suas crenças. RAW também gostava do termo psicologia primitiva, que ele já havia citado em sua obra Prometheus Rising, de 1983. Isto, na verdade, era apenas uma outra forma de chamar a psicologia evolutiva.

RAW sempre lembrava o fato inegável do territorialismo da espécie humana, mas dizia que estes territórios não são demarcados apenas na forma de propriedades ou nações, mas também na forma de territórios mentais:

Devido à capacidade única desses seres (evidentemente incluindo os chimpanzés, de acordo com alguns relatórios recentes) de aprender sistemas neurossemânticos (códigos, linguagens) tornou-se possível para esses mamíferos únicos possuir (ou pensar que possuem) territórios simbólicos, assim como territórios físicos. Esses territórios simbólicos são, geralmente, denonimados ideologias ou sistemas de crença em nossa terminologia preferida, túneis de realidade.

Na lógica de RAW, quando alguém se apaixonou por sua ideologia, tende a defendê-la da mesma forma que alguém defenderia a sua casa de uma invasão. Isto serviu-me como base fundamental para os testes que fiz no Orkut ao questionar as crenças de adeptos de Carl Sagan.

Outro ponto interessantíssimo surge quando RAW nos lembra que o fanatismo não é apenas algo inerente à religião tradicional. É possível encontrarmos fanáticos na defesa de quaisquer territórios simbólicos. Segundo RAW, desde a antiga idolatria e da antiga Inquisição, temos visto, sem perceber o que estava acontecendo, o surgimento de uma nova idolatria e de uma Nova Inquisição.

A análise do mecanismo do funcionamento da mente humana dos territórios simbólicos dificilmente pode ser refutada:

É óbvio que toda fé dogmática produz, ao seu redor, uma camada secundária de dúvida, negação e ceticismo cabal acerca da fé oponente. O mais dogmático fundamentalista bíblico, por exemplo, é capaz de cinismos bastante corrosivos referentes aos milagres de Buda. O mais fanático marxista também é um cínico a respeito da infalibilidade do Papa. Aiatolá Khoumeini acredita em cada palavra do Alcorão, mas é absolutamente ateu em relação aos pronunciamentos do Departamento de Estado dos EUA. Isso é universal: cada fé, cada aceitação, cria uma dúvida necessária, ou rejeição, ou coisas fora da fé. Todo ídolo é invejoso de outros ídolos.

Até aqui tudo realmente inspirado e bastante lúcido, mas na proposta seguinte de RAW aparece o momento onde eu e ele entramos em discordância, pois meu método refuta o dele. Diz RAW:

A única escapatória para essa armadilha, até onde consigo ver, é ser cético em relação ao nosso próprio ceticismo: isso foi o que eu quis dizer com o Novo Agnosticismo.

O problema é que, quando mais aprendemos sobre o ser humano, mais sabemos que ele não tende a ser cético em relação as crenças que o beneficiem. Ou mesmo aquelas que já tenham se tornado territórios simbólicos pelos quais ele irá lutar (de forma principalmente inconsciente), embora, como eu já tenha dito antes, seria extremamente positivo caso isto ocorresse. Um ser humano ser capaz de sair de si mesmo (no que diz respeito às suas intuições, desejos inconscientes e auto-interesse) é louvável, mas isso não significa que seja realizável. E mesmo que seja realizável (o que é improvável), ainda não significa que um alegador desta característica (ser cético em relação ao próprio ceticismo) realmente a possua.

É quando eu desconstruo esta constatação de RAW. Quando ele diz que temos uma única escapatória para a armadilha (isto é, a defesa injustificada de territórios simbólicos), podemos colocar sob xeque a ideia de que temos de fato qualquer tipo de escapatória. Então a afirmação podemos escapar desta amadilha mental torna-se uma alegação a ser testada. Assim como quando alguém diz que é possível ser cético em relação ao próprio ceticismo, temos mais uma alegação a ser testada. Se esta mesma pessoa afirmar que é cético em relação ao próprio ceticismo (em outras palavras, um auto-cético), podemos também ser céticos quando alguém diz que é cético em relação ao próprio ceticismo. Se alguém afirma ser capaz de fugir de seus desejos inconscientes e de motivações relacionadas a auto-interesse na seleção de suas crenças, temos outra alegação a ser testada.

Ironicamente, ao mesmo tempo em que coloco a hipótese do novo agnosticismo sob crivo cético, realmente me inspirei em outras perspectivas do autor, que provavelmente teve boas intenções ao criar o novo agnosticismo, embora, a meu ver, isto tenha sido uma ingenuidade da parte dele. (Em suma, ele é muito útil ao nos lembrar da falibilidade da mente humana, e juntar à esta constatação a psicologia evolutiva, mas ingênuo ao acreditar que podemos fugir dessa característica)

Ao levar o ceticismo às últimas consequências, expandindo os modelos tradicionais de ceticismo pirrônico e ceticismo científico para o ceticismo político (onde qualquer alegação política deve ser priorizada para questionamento), nem mesmo o novo agnosticismo de RAW permanece incólume. Se não há evidências de que podemos questionar nosso próprio ceticismo, ao menos podemos questionar alegações de auto-ceticismo vindas de nossos oponentes políticos.

Isso me torna uma ovelha negra dentre os leitores de RAW, pois se me inspirei por insights poderosíssimos contidos em livros como Prometheus Rising, Gatilho Cósmico e especialmente A Nova Inquisição, rejeitei sua proposta de solução, que veio sob a forma de novo agnosticismo. (Aliás, agora deve ser ficado claro por que eu, que me rotulava neo-agnóstico no passado, abandonei tal rótulo. Resumo do motivo: eu me tornaria um questionador da possibilidade de alguém ser um novo agnóstico, ou melhor, um auto-cético)

Mas, se sou oponente de RAW na possiblidade do novo agnosticismo (lembremos: o novo agnosticismo clama pelo ceticismo aplicado pelo proponente de uma idéia à esta idéia, enquanto o ceticismo político, dentro da perspectiva do duelo cético, defende que o único ceticismo que podemos esperar é aquele aplicado pelo oponente de uma ideia), continuo sendo inspirado pela ideia da leitura de materiais contraditórios, para adquirir a capacidade de aprender com meus oponentes.

Esta sim, é a grande arte que aprendi com Robert Anton Wilson.

FONTE: LUCIANO AYAN – http://lucianoayan.com/2013/02/22/robert-anton-wilson-o-papa-do-neo-agnosticismo-e-uma-inspiracao-fundamental/

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