Publicado por: Conselheiro Fnord | 30/10/2012

MUNDO DISCORDIANISTA: Cientistas condenados por incertezas… pode?


de Alex Rodrigues

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Primeiro a notícia publicada no G1:

A justiça italiana condenou sete geólogos, vulcanólogos e técnicos da Defesa Civil a seis anos de prisão por não terem avisado à população de L´Aquila sobre os riscos do terremoto ocorrido em 6 de abril de 2009, no qual 309 pessoas morreram, 1600 ficaram feridas e 65 mil desabrigadas. Considerou-se que os sete condenados deram aos moradores informações inexatas, incompletas e contraditórias.

Sobre isso, deixarei abaixo dois textos, um do site do Carlos Orsi e outro do blog NAQ Never Asked Question.

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Cientistas culpados por mortes em terremoto?

de Carlos Orsi

A Justiça italiana decidiu, em primeira instância, condenar seis cientistas e um funcionário público a seis anos de cadeia por homicídio culposo, por supostamente terem dado à população da cidade de LAquila informações incompletas, contraditórias e inexatas às vésperas do terremoto de 2009 que matou 308 pessoas e reduziu as construções do local a escombros.

De acordo com esta reportagem do jornal The Guardian, os cientistas condenados faziam parte de uma comissão, reunida seis dias antes do terremoto, para opinar a respeito de uma série de pequenos tremores que vinham atingindo a área.

Na opinião de moradores da região entrevistados pelo Guardian, os pesquisadores, especialistas em sismologia e vulcanologia, teriam concordado em fazer parte de uma farsa armada pela Defesa Civil da cidade, emitindo declarações tranquilizadoras, sem embasamento, apenas para acalmar a população que, desprevenida, foi pega de surpresa pelo grande tremor que se seguiu.

Existem algumas questões imbricadas aí e que deveriam, idealmente, ser tratadas de modo separado. A primeira, que é a que vem recebendo mais atenção da mídia, é a de que é impossível prever terremotos, e a intensidade de terremotos, no curto prazo.

Você pode, por exemplo, calcular a probabilidade de um terremoto atingir determinada área num intervalo longo de tempo (são altas as chances de haver um tremor no Chile nos próximos 100 anos), ou criar sistemas de alerta para avisar populações de que um grande terremoto já começou em algum outro lugar e está a caminho, mas prever quando um grande terremoto vai acontecer, onde e com que magnitude é, ao menos por enquanto, cientificamente impossível.

Nos anos 70, os chineses acreditaram ter encontrado um método de previsão de tremores baseado em choques prévios como os pequenos terremotos em LAquila que precederam o impacto principal , apenas para serem pegos de calças curtas pelo sismo de Tangshan, que matou mais de 200.000 pessoas em 1976. Como diz artigo publicado no site de um especial da PBS americana sobre geologia, terremotos têm, sim, sinais precursores, mas eles só se revelam claramente em retrospecto.

Daí, dá para dizer que, se os cientistas italianos foram condenados por não prever o terremoto, trata-se de uma asneira inominável. Ninguém pode ser condenado por não fazer o impossível. Essa decisão judicial é mais uma para entrar no folclore do Judiciário italiano, ao lado da magnífica sentença que diz que o fato de uma mulher violentada usar jeans apertados descaracteriza o crime de estupro.

Porém, e aqui surge a segunda questão, pode-se argumentar que a causa da condenação não foi exatamente essa. A decisão completa do juiz só deve ser publicada dentro de 90 dias, mas o verdadeiro peso moral do caso parece estar na impressão, disseminada na população local, de que os cientistas concordaram, irresponsavelmente, em usar sua autoridade para dizer às pessoas que estava tudo bem. Eles teriam, em resumo, aceitado tomar parte em uma farsa que acabou custando vidas. Seria algo como um cenário de filme B, em que um biólogo é corrompido pelo prefeito de uma estância turística para dizer que os tubarões que rondam a praia são mansinhos.

Essa interpretação se sustenta? Bem, reafirmando: é impossível prever terremotos. Para poder acusar os cientistas de cúmplices numa farsa, no entanto, seria preciso estabelecer que (1) eles sabiam que o terremoto estava a caminho e (2) que deliberadamente esconderam a informação. Como (1) é impraticável, a tese desmorona.

A última questão é a de que por que culpar os cientistas e não o Diabo, Deus, o código de construção civil ou os pecadores da cidade. Se um profeta tivesse dito que a cidade estava segura, e o terremoto ocorresse, ele poderia pôr a culpa na falta de fé dos munícipes. Cientistas não têm essa saída.

Note-se, no entanto, que a acusação não diz que eles prometeram segurança, mas apenas que foram incompletos, contraditórios e inexatos. Que é exatamente como a ciência muitas vezes é, principalmente nas questões limítrofes do conhecimento.

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Falha sísmica: da prisão dos cientistas italianos

de none

A Justiça italiana conseguiu transformar a tragédia do terremoto de Áquila, em 2009, com cerca de 300 mortos em uma piada internacional.

Piada de mau gosto. Sete membros da Comissão Nacional para Previsão e Prevenção de Riscos Maiores, dos quais seis são cientistas (Enzo Boschi, então presidente do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia; Franco Barberi, da Universidade de Roma 3; Mauro Dolce, chefe do esceritório de risco sísmico do Departamento de Defesa Civil em Roma; Claudio Eva, da Universida de Gênova; Giulio Selvagg, diretor do Centro Nacional de Terremotos do INGV e Gian Michele Calvi, do Centro Europeu de Treinamento e Pesquisa em Engenharia de Terremoto em Pavia) e um, membro do governo (Bernardo De Bernardinis, então vice-presidente do Departamento de Defesa Civil), foram presos acusados de homicídio culposo por minimizarem os riscos de terremoto na região após uma série de abalos menores e um pouco antes do sismo mais intenso que causou mortes e destruição.

Carlos Orsi comenta sobre a decisão. E uma longa reportagem da Nature no ano passado dá detalhes da acusação.

Só o fato de se instaurar um processo nesses termos já era uma piada. A acusação alega que o processo não é motivado por falhar em prever terremotos, mas por fornecerem informações incompletas, imprecisas e contraditórias. Então temos que prender *todos* os cientistas. A ciência é, em boa parte, motivada pelo contraditório é isso que leva a se tentar testar hipóteses concorrentes; por natureza é incompleta, em qualquer momento é impossível se ter conhecimento de todos os aspectos possíveis e, por isso, ela é imprecisa (mesmos as medidas mais precisas comportam uma margem de erro, que é expressa numericamente em muitos relatos científicos).

Podemos ser mais caridosos quanto à acusação: seriam mais incompletas, mais imprecisas e mais contraditórias do que seria o aceitável pelos padrões dos conhecimentos científicos atuais. Ainda assim há um grande problema: essencialmente os terremotos são imprevisíveis é possível se estimar uma probabilidade dentro de um prazo para uma dada região; mas essa probabilidade comporta necessariamente um grande grau de incerteza (somente para prazos suficientemente longos e áreas suficientemente grandes é possível se trabalhar com médias).

Ocorre que a preocupação era com uma área muito restrita: a cidade de Áquila, em um tempo igualmente restrito: um prazo de menos de um ano. Ocorre que desde 1315, na cidade, temos 10 casos de abalos de intensidade razoável (cerca de magnitude 5 ou mais na escala Richter). Considere a situação de 2009: 10 abalos grandes em 694 anos de história. Uma probabilidade de 0,144%.
O que as autoridades italianas queriam que fosse dito? Que era caso de preocupação diante de uma chance de menos 1%? Vamos admitir que, sim, foram negligentes. Então, *todas* as autoridades italianas estão sendo negligentes em permitir que os habitantes de Áquila continuem morando naquela região, já que a probabilidade geral continua sendo de 0,144%/ano.

Eu sugiro que os sismólogos italianos peçam asilo no Brasil, só por garantia de não conseguirem reverter essa condenação sem sentido em seus recursos de apelação.

FONTE: BULE VOADOR – http://bulevoador.com.br/2012/10/38118/

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