Publicado por: Conselheiro Fnord | 18/10/2012

MUNDO DISCORDIANISTA: Um cético e um ocultista respondem: “O que a ciência tem a ganhar com a espiritual idade?”


Parte da série “Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência”, onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Na mitologia grega, Prometeu foi um titã defensor da humanidade, conhecido por sua astúcia e inteligência. Ele foi responsável por roubar o segredo do fogo divino e dar aos mortais, ato que foi severamente punido pelos deuses.
Há muito tempo o homem tem sondado os segredos da natureza, e desde cedo houveram muitos que afirmavam que era inútil seguir adiante: não se podia desafiar aos deuses. Mas outros, tal qual Prometeu, não esmoreceram ante o desconhecido, e é precisamente graças a esses últimos que devemos boa parte de nossa filosofia, ciência e – porque não dizer – espiritualidade.

Este paradoxo entre a inconcebível natureza da Natureza – parafraseando Feynman – e o nosso esforço para compreendê-la e domá-la, tal qual um tigre feroz, é algo que permeia toda a história de nossa cultura. Os avanços científicos, no entanto, têm espantado e assustado a muitos: a mesma energia (nuclear) que abastece um hospital pode dizimar cidades inteiras em segundos; os cientistas não só mapearam o genoma humano como prometem um dia “reprogramar” os corpos de nossas crianças ainda na gestação; etc. Tudo isso levanta profundas questões éticas.

Nesse contexto: estaria tal conhecimento relegado as trevas (como querem os fundamentalistas)? Ou ainda é possível unir os avanços científicos com o debate ético que permeou nossa cultura desde o advento das primeiras religiões? Em suma: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

[Del Debbio] Antes de responder a esta pergunta, é necessário que se faça uma separação e explicação da diferença gritante entre Religião e Espiritualidade. No mundo de hoje, infelizmente, estas duas palavras estão misturadas no meio de muita ignorância e fundamentalismo dogmático.

Espírito, para os ocultistas, representa o sopro de realização divina que habita em todos os homens, que conhecemos como “Inspiração”. Espírito é definido pelo conjunto total das faculdades intelectuais. Ele é freqüentemente considerado como um princípio ou essência da vida incorpórea (religião e tradição espiritualista da filosofia), mas pode também concebida como um princípio material (conjunto de leis da física que geram nosso sistema nervoso).

Na Antiguidade, o sopro e o que ele portava (Alef, o som, a voz, a palavra, o nome) continha a vida, seja em protótipo, em essência ou em potência (mítica). No tronco judaico-cristão das religiões diz-se que “Deus soprou o barro para gerar o (ser no) homem”. Simbolicamente, a terra representa à parte material do corpo e o sopro a parte de nossa consciência que até hoje não foi reproduzida em laboratório; estando, portanto, além dos domínios do método científico atual.

Religiões, por outro lado, são invenções humanas. Grilhões da vontade moldados por pessoas que se utilizam da falta de conhecimento e estudos de outras para obter poder e dinheiro sobre elas. Um verdadeiro veneno da humanidade.

Sendo a Espiritualidade a busca constante pelo conhecimento e pela pesquisa dentro da Ética, a Ciência pode ser considerada a irmã mais nova da espiritualidade, ao lado das Artes e da Filosofia. Porém, a ciência, tal qual a arte e a filosofia, são amorais.

Desta maneira, a espiritualidade deve sempre guiar a utilização do conhecimento em busca do bem maior e do desenvolvimento da humanidade. Os Iluministas e alquimistas chamaram este movimento de “Humanismo”. O humanismo, da maneira como os alquimistas o vêem, propõe ao ser humano a realização de um processo de evolução que o leve a superar suas qualidades até alcançar a excelência de sua condição humana.González Pecotche afirma que o humanismo é “parte do próprio ser sensível e pensante, que busca consumar dentro de si o processo evolutivo que toda a humanidade deve seguir. Sua realização nesse sentido haverá, depois, de fazer dele um exemplo real daquilo que cada integrante da grande família humana pode alcançar”.

Não é de se espantar que, em sociedades nas quais as casas e barcos eram construídos com madeira e pedra, seus deuses possuíam como principal arma um martelo. O Martelo, simbolicamente, representa a vontade e o conhecimento técnico que pode ser usado tanto para construir quanto para esmagar a cabeça de um inimigo. Só depende de quem o estiver utilizando.

[Mori] Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que iremos resolvê-los, definiu melhor do que ninguém Isaac Asimov. Nossas mitologias de certa forma refletem esta sabedoria. Na mitologia grega em Hesíodo, o conhecimento concedido à humanidade representado pelo fogo de Prometeu é punido por Zeus através de Pandora e sua caixa. Todos os males do mundo são uma punição pelo conhecimento roubado dos deuses, e eles não podem ser contidos novamente. Mesmo no mito do Jardim do Éden, é curiosamente também uma mulher a levar ao pecado original do fruto do conhecimento, que uma vez provado leva à expulsão sem volta de Adão e Eva do Paraíso. Conhecimento é um atributo divino, mas todos os problemas que ele causa são um caminho do qual não há retorno.

Seria então o conhecimento uma maldição? Tanto na mitologia grega quanto na cristã, entende-se que éramos imortais antes do conhecimento, mas Carl Sagan em Os Dragões do Éden fornece uma interpretação profunda a estas mitologias ocidentais: não é que fôssemos realmente imortais, é que simplesmente não possuíamos conhecimento sobre a morte. Um papagaio pode ser imortal simplesmente porque jamais entenderá que um dia irá morrer. Ele é imortal enquanto vive. A ignorância pode ser uma benção, mas é uma que ultimamente nos iguala aos animais, e neste sentido, mais do que benção a ignorância é, ela sim, uma maldição. É justamente no desafio aos deuses na busca do conhecimento que nos aproximamos de algo divino.

Depois de milênios, e indo muito além dos antigos gregos, sistematizamos a aquisição de conhecimento sobre o mundo natural através daquilo que chamamos de ciência. E avançamos incrivelmente, o que antes os gregos especulavam, como os átomos, hoje conhecemos e manipulamos em seus componentes, dos elétrons à tecnologia nuclear, um tipo de fogo fundamentalmente diferente, com poder e ordens de magnitude maior. É um novo fogo de Prometeu. Seria uma nova maldição?

O problema não é o conhecimento, é a sabedoria, ou a falta dela. Não conseguimos sistematizar a aquisição de sabedoria. A filosofia tenta promovê-la e muitas religiões tentam se apropriar dela, mas nenhuma delas é tão bem sucedida na aquisição de sabedoria quanto à ciência o é na aquisição de conhecimento. Em efeito, pode-se dizer que parte das religiões e filosofias é contrária à busca tanto por sabedoria quanto por conhecimento, retraindo-se ao invés no dogma e na ignorância. São tudo aquilo de que não precisamos.

É neste desequilíbrio entre o sucesso espetacular da ciência na busca por conhecimento e o fracasso em termos da filosofia e da religião na busca por sabedoria que nos encontramos hoje. Muitos percebem esta preocupante situação, e apelar à espiritualidade, como um conceito anterior à religião, é uma resposta buscada assim como aqueles que buscam a religiosidade ao invés da religião.

São tentativas, embora fundamentalmente estas abordagens difiram apenas em seu escopo, ao promover uma busca por sabedoria individual ao invés daquela ditada coletivamente. No ponto em que promovem o livre arbítrio e o questionamento são positivas, mas deixam de lado algo da sabedoria que a coletividade também pode oferecer.

Acredito que além da espiritualidade e da religiosidade, como sentimentos individuais; além da filosofia e da religião como práticas coletivas, há algo mais promissor na busca por sabedoria tão necessária para lidar com os desafios impostos pelo conhecimento: o livre debate fundamentado nesse mesmo conhecimento.

Temos hoje as ferramentas tecnológicas para o livre debate como nunca antes tivemos, porém nos falta um conhecimento compartilhado sobre as questões que precisamos debater. Temos espiritualidade, temos religiosidade, temos conhecimento acumulado em livros, computadores, cientistas, mas falta conhecimento democratizado, popularizado. De pouco adianta querer o bem de todos se ao discutir sobre a energia nuclear, não se sabe realmente o que é um átomo. Não há sabedoria sem conhecimento.

Se o conhecimento pode criar problemas a todos nós, é compreendendo-os coletivamente que iremos resolvê-los.

do Bule Voador de Eduardo Patriota

Autor: Kentaro Mori, Marcelo Del Debbio e Rafael Arrais

Editor: Eduardo Patriota Gusmão Soares

FONTE: BULE VOADOR

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