Publicado por: Conselheiro Fnord | 27/07/2012

DISCORDIANISMO: Além da atribuição na lenda do Einstein apologético


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[…] ainda há quem diga que Deus não existe. O que me incomoda é que me citem para suportar seus argumentos.
Albert Einstein, LOWENSTEIN, Prince H. Z. Towards the Further Shore. Victor Gollancz Ltd: 1968.

Este texto não é uma refutação à atribuição absurda da situação seguinte a Einstein. Sabidamente, não há prova nenhuma ou sequer consistência que confirme isto como sendo da autoria do cientista. Você pode encontrar algo que trate deste problema de referenciação .

O que este texto pretende é refutar os argumentos apresentados dentro do texto. Primeiramente porque, mesmo que Einstein, notadamente um deísta antirreligioso, de fato tenha dito isto, teria dito asneiras. Em segundo lugar, porque, dentro de um debate, não importa quem disse algo, mas sim o que foi dito. Se um argumento é bom, pode ter sido de Einstein ou de Lamarck, o argumento é o que importa.

Abaixo será citada umas das versões, que mais recentemente circula no Facebook com a foto de uma lousa gigante numa sala universitária. Alguns trechos foram suprimidos e nenhum foi alterado. O texto não está com os parágrafos ordenados como no original, mas de modo a juntar os argumentos propostos.

Professor: Deus é bom?
Aluno: Claro.
Professor: Deus é todo poderoso?
Aluno: Sim.
Professor: Meu irmão morreu de câncer, embora ele orou a Deus para curá-lo. A maioria de nós iria tentar ajudar outras pessoas que estão doentes. Mas Deus não o fez. Como isso é um bom Deus, então? Hmm?

O aluno não responde este questionamento. Ele aguarda em silêncio até o fim para responder ao professor os motivos pelos quais Deus existe. Perdido no começo do texto estaria, provavelmente, a mais importante colocação do professor que segue a seguinte lógica:

  • Deus é bom.
  • Deus é onipotente.
  • Deus deixou meu irmão morrer de câncer.

O que o aluno responderá ao professor é que o mal é a ausência de Deus, não sua presença. Que o mal aflige porque Deus não está na vida de alguém, não porque Deus ativamente o faz ou cria. A refutação é absurda e vazia simplesmente porque assume-se a premissa de que Deus é onipotente. Oras, se um ser é capaz de tudo, por que está ausente? Se criou-se e, mesmo que não o tenha feito, é capaz de tudo, por que permite-se estar ausente? Por que não está presente a todo momento? Se é todo poderoso e bom, por que não impede que o homem, que orou por ele, morra de câncer? Porque ele simplesmente estava ausente? O aluno, ao argumentar que o mal é a ausência de Deus, esquece-se da onipresência deste.

Professor: A ciência diz que você tem 5 sentidos que você usa para identificar e observar o mundo ao seu redor. Diga-me, filho, você já viu [, ouviu, sentiu, provou, cheirou] DEUS?
Aluno: Não, senhor. Me desculpe mas eu não tive.

[…]

Existe alguém aqui que já ouviu o cérebro do professor, sentiu, tocou ou cheirou? Ninguém parece ter feito isso. Assim, de acordo com as regras estabelecidas de protocolos empiricos, estável, comprovada, a Ciência diz que você não tem cérebro, senhor. Com todo o respeito, senhor, como então confiar em suas palestras, senhor?

Esta proposição absurda feita por uma versão estúpida de Einstein no mínimo comprova que ele era realmente um aluno medíocre. A simplicidade da refutação é a de que, se você abrir a cabeça do professor, dentro dela terá um cérebro. E você poderá tocá-lo, cheirá-lo e até prová-lo se assim você julgar necessário (como o professor e seu aluno acreditam ser). Se você fizer uma tomografia da cabeça do professor, você verá um cérebro. E isto se repete para todas as pessoas ao redor porque a humanidade sabe desde o início dos tempos que há uma massa cinzenta dentro de nossas cabeças. Não é através da fé que chegamos a esta conclusão, mas simplesmente porque quando abrimos uma cabeça dentro dela há um cérebro. Não se trata de um cientista pregando em um púlpito que os cérebros existem e estão em nossas cabeças, mas de um fato observável, clínico e absurdamente lógico.

Aluno: Senhor, você pode ter muito calor, e ainda mais calor, superaquecimento, mega calor, calor branco, pouco calor ou nenhum calor. Mas não temos nada que se chame frio. Podemos atingir 236º graus abaixo de zero que não é calor, mas não podemos ir mais longe que isso. O frio não existe. Frio é apenas uma palavra que usamos para descrever a ausência de calor. Não podemos medir o frio. O calor é energia. Frio não é o oposto de calor, senhor, apenas a ausência dele.

[…]

A escuridão é a ausência de algo. Você pode ter pouca luz, a luz normal, luz brilhante, luz piscante. Mas se você não tem luz constantemente, você não tem nada e você a chama de escuridão, não é? Na realidade não é. Se isso fosse correto, você seria capaz de fazer mais escura a escuridão, não seria?

[…]

Aluno: Senhor, você está trabalhando na premissa da dualidade. Você argumenta que há vida e há morte, um Deus bom e um Deus mau. Você está vendo o conceito de Deus como algo finito, algo que podemos medir. Senhor, a ciência não pode explicar um pensamento. Ele usa eletricidade e magnetismo, mas nunca viu, muito menos completamente compreendeu qualquer um. Para ver a morte como o oposto da vida é ser ignorante do fato de que a morte não pode existir como algo substantivo. […] A morte não é o oposto da vida: apenas a ausência dela.

O aluno agora parece convencido de que o frio, a escuridão e a morte não existem porque somente se configuram na ausência de outra coisa. Desta forma, parece propor que a pobreza e a asfixia não existem porque uma é a ausência do dinheiro e outra do oxigênio. O ponto fraco de seu argumento é a percepção sensorial da qual fala antes, e também de como o professor cita a empírica. Dizer que a escuridão não existe porque é a ausência de luz seria refutar que o mal existe. O professor nunca propõe que o mal é existente ou não: ele propõe que um Deus genuinamente bom nunca teria criado o mal. De que importa se o mal é a presença ou ausência de Deus quando um deus onipotente seria capaz de não permitir esta lacuna de sua presença onde o mal impera? De que importa a analogia entre a escuridão não existir se ela só propõe que o mal não existe, ao invés de analisar por que, dentro do contexto teológico, ele o faria?

Já se ele pretende usar a ausência de percepção da escuridão e do frio como analogias à incapacidade científica de provar a existência de Deus, continua a fazer um argumento fraco. A escuridão existir cai simplesmente no conceito de definição de existência.

Se algo existir é ser percebido e estar presente, então a escuridão existe. Se nós podemos ver e sentir algo, experimentá-lo com nossos sentidos tal qual o próprio aluno propõe ao fazer o argumento pobre do cérebro, então a escuridão, o frio e a morte existem. O aluno parece propor que, para algo existir, precisa ser dependente somente de si e ser sua própria origem. Nada que existe por ser a ausência de algo é existente, dentro de sua lógica. É irrelevante defini-lo como tal porque:

  • Se existir é ser experimentado, Deus não existe pois não pode sê-lo (segundo o aluno)
  • Se existir é não depender da presença de algo, Deus existe e o mal também
    • se o mal existe, Deus o criou
    • se o mal é a ausência de Deus, Deus é seu cúmplice

Sendo assim, não há falsa dualidade proposta mais absurda do que a do próprio aluno.

Estudante:Agora me diga, Professor, você ensina a seus alunos que eles evoluíram de um macaco?
Professor: Se você está se referindo ao processo evolutivo natural, sim, claro, eu faço.
Estudante: Você já observou a evolução com seus próprios olhos, senhor?
Estudante: Como ninguém jamais observou o processo de evolução em trabalho e não pode sequer provar que este processo é um empreendimento em curso. Você não está ensinando a sua opinião, senhor? Você não um cientista, mas um pregador?

O problema deste trecho parece ser, na verdade, que temos um professor incompetente. O aluno propõe que somente aquilo que vemos com nossos olhos é real (embora anteriormente tenha proposto que isso não pode ser necessário, caso contrário somos todos anencéfalos). Se ele está propondo que Deus não pode ser observado mas é real, então está dizendo que a evolução é real. Se ele está propondo que a evolução só poderia ser real se fosse observável, então está propondo que Deus não existe porque não pode sê-lo.

A evolução está comprovada. Não só é tolo dizer que não se pode provar a evolução como também dizer que ela não é observável. Qualquer um pode observá-la toda vez que fica gripado e toma antibióticos, onde um deslize no horário seleciona os micro-organismos resistentes e elimina só os mais fracos. Qualquer um pode observá-la matando baratas em casa com inseticida, onde morrem as que não são capazes de resistir ao veneno utilizado e ficam as mais resistentes: trocando-se a marca, faz-se mais uma eliminatória onde, com sorte, uma espécie pode ainda ter resistência. Pouco importa, porém, pelo exposto acima, a veracidade e observabilidade da evolução, porque não é necessário que algo esteja acontecendo ao vivo para que seja real. Porque por esta lógica, o ponteiro das horas não se move.

Professor: Eu acho que você vai ter que toma-las pela, fé filho.
Aluno: É isso senhor Exatamente! O elo entre o homem e Deus é fé. Isso é tudo o que mantém as coisas vivas e em movimento.

Exatamente. É exatamente a sensação final de que o que é dito faz sentido e a falsa atribuição a Einstein que colocam sobre a fé a coroa da verdade. A verdade, porém, não existe. Não pertence nem à ciência, nem à religião. Esta primeira, porém, apega-se à humildade de dizer ser verdade apenas a sua certeza e de modificar tudo o que diz quando comprova-se errado. A segunda não apresenta nem prova, nem propõe-se a mudar-se caso errada. Qualquer ser humano que propuser-se a pensar honestamente sobre isto chegará à mesma conclusão. Que propuser-se a pensar. Pensar sem vestir nenhuma camisa, nem partido, nem religião. O elo entre o homem e Deus é a ignorância.

FONTE: http://bulevoador.com.br/2012/07/36250/

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