Publicado por: Conselheiro Fnord | 26/07/2012

MUNDO DISCORDIANISTA: DOUGLAS ADAMS – Existe um Deus Artificial?


Fonte: Biota.org
Autoria: Douglas Adams (audio disponível aqui)
Tradução: Guilherme Balan

Douglas Adams

Em honra à memória de Douglas, o biota.org apresenta a transcrição de sua palestra no Digital Biota 2, realizada na Magdalene College Cambridge, em setembro de 1998. Eu gostaria de agradecer Steve Grand por nos fornecer esse texto. Douglas apresentou isso “de improviso”, o que só engrandece sua genialidade para nossos olhos – Bruce Damer

Isso foi originalmente anunciado como um debate só porque eu estava um pouco ansioso para vir aqui. Eu não achava que ia ter tempo pra preparar algo e também, em uma sala cheia de tantas notoriedades, eu pensei “o que eu, como um amador, poderia ter pra falar?” Então, eu achei que ficaria com um debate. Mas depois de passar uns dias aqui, eu percebi que vocês são só um monte de caras! Eles têm sido repletos de ideias e eu mesmo tive tantas falando e ouvindo tantas pessoas, que pensei que o que eu devia fazer era um stand up e discutir e debater comigo mesmo.

Antes de embarcar no que eu quero tentar abordar, deixe-me avisar que as coisas podem parecer meio perdidas algumas vezes, porque tem bastante coisa que acabou de surgir por conta do que eu tenho ouvido hoje, então se eu de repente começar: eu estava falando pra alguém hoje mais cedo que eu tenho uma filha de quatro anos e que era muito, muito interessante ver ela fazer a mesma cara de quando ela estava nas suas primeiras duas ou três semanas de vida, percebendo de repente o que ninguém perceberia em eras passadas: ela estava reiniciando o sistema!

Eu só queria mencionar uma coisa, que é completamente irrelevante, mas de que eu tenho muito orgulho: eu nasci em Cambridge em 1952 e minhas iniciais são D N A!

O tópico que eu quero apresentar pra vocês essa noite, o assunto do debate que nós estamos prestes a meio que não ter, é um pouco jocoso (vocês vão se surpreender, mas veremos onde vamos chegar com isso): “Existe um Deus Artificial?“. Acredito que a maioria das pessoas nesta sala vai ter a mesma opinião, mas mesmo um ateu ‘requintado’ não poderia deixar de notar que o papel que um deus teve um impacto tremendamente profundo na história humana por muitos, muitos séculos. É bem interessante determinar de onde isso veio e o que isso – no mundo científico moderno em que nós às vezes temos esperança de que vivemos – realmente significa.

Eu estava pensando nisso hoje mais cedo quando Larry Yaeger estava falando sobre “o que é vida?” e mencionou no final uma coisa que eu não sabia, sobre uma área específica do reconhecimento da escrita. O seguinte pensamento estranho passou pela minha cabeça: que tentar determinar o que é vida, o que não é e onde está o limite tem uma relação interessante com como você reconhece uma escrita à mão. Nós todos sabemos, quando confrontados com certa entidade – seja um pedaço de mofo da geladeira ou o que for – nós instintivamente sabemos quando uma coisa é um exemplo de vida e quando não é. Mas acaba sendo tremendamente difícil definir isso com precisão. Eu me lembro uma vez, há muito tempo, quando precisei de uma definição de “vida” para uma palestra que eu ia dar. Assumindo que haveria uma simples e procurando pela Internet, eu fiquei espantado com a diversidade de definições e o quão extremamente detalhada cada uma tinha que ser para incluir ‘isso’ mas não incluir ‘aquilo’. Se você parar pra pensar, uma mosca de fruta, Richard Dawkins e A Grade Barreira de Corais são um conjunto estranho de objetos para se comparar. Quando nós tentamos determinar quais são as regras que estamos procurando, tentando achar uma regra que é auto-evidentemente verdadeira, acaba sendo muito, muito difícil.

Compare isso com o ofício de reconhecer se algo é um ‘A’ ou um ‘B’ ou um ‘C’. É um processo similar, mas é também um processo muito, muito diferente, porque você pode falar de alguma coisa que você não tem muita certeza se conta como vida ou não-vida; está meio que lá no limite, é talvez um exemplo muito fraco do que você chamaria de vida, é talvez quase vivo ou talvez não é. Ou talvez você possa falar sobre algo que é um exemplo de vida Digital, “isso conta como algo que está vivo?”. Isso é algo – pra usar uma frase de alguém mais cedo – que vai fazer “squish” se eu pisar em cima? Pense na hipótese controversa de Gaia; pessoas dizem: “O planeta está vivo?”, “A escosfera está viva ou não?”. No fim, depende de como você define essas coisas.

Compare isso com reconhecimento de escrita. No fundo você está tentando dizer “Isso é um ‘A’ ou é um ‘B’?” Pessoas escrevem ‘A’s e ‘B’s em muitos jeitos diferentes: florido, desleixado ou o que seja. Não dá certo dizer “bem, é meio ‘A’ mas tem um pouco de ‘B’ aqui”, porque você não pode escrever a palavra “maçã” desse jeito. Ou é um ‘A’ ou é um ‘B’. Como você julga isso? Se você está fazendo um reconhecimento de escrita, o que você está tentando fazer não é avaliar os graus relativos de “A-zidade” ou “B-zidade” da letra, mas tentando definir a intenção da pessoa que escreveu. No fim, fica bem claro. “É um ‘A’ ou um ‘B’? Ah! É um ‘A’, porque a pessoa que estava escrevendo escreveu a palavra ‘maçã’ e isso é claramente o que ela significa”. Então, por fim, com a ausência de um criador intencional, você não pode dizer o que é vida, porque ela simplesmente depende do conjunto de definições que você inclui na sua definição geral. Sem um deus, vida é só uma questão de opinião.

Eu quero retomar algumas outras coisas que apareceram por aqui hoje. Eu fiquei fascinado com o Larry (de novo) falando sobre tautologia, porque tem um argumento que eu lembro que me deixou atordoado uma vez e eu não conseguia encontrar uma resposta, porque eu estava muito intrigado com o desafio e não conseguia resolvê-lo. Um cara disse pra mim “Ok, mas toda a teoria da evolução é baseada numa tautologia: o que sobrevive, sobrevive”, isso é tautológico, portanto não significa nada. Eu pensei sobre isso por um tempo e finalmente me ocorreu que uma tautologia é algo que, se não significa nada, não só nenhuma informação entrou, mas nenhuma consequência saiu dela. Então, nós podemos ter acidentalmente tropeçado na resposta definitiva: é a única coisa, a única força, provavelmente a mais poderosa de que temos noção, que não precisa de nenhuma entrada, nenhuma sustentação de lugar algum, é auto-evidente, portanto tautológica, contudo espantosamente poderosa em seus efeitos. É difícil encontrar uma coisa que corresponda isso e por esse motivo eu a coloco logo no início de um dos meus livros. Eu a reduzi para o que eu achei ser estritamente essencial, que é bem similar às que vocês apresentaram mais cedo, que foi “qualquer coisa que acontece, acontece; qualquer coisa que, acontecendo, faz alguma outra coisa acontecer,faz alguma outra coisa acontecer; e qualquer coisa que, acontecendo, faz ela mesma acontecer de novo, acontece de novo”. Na verdade você nem precisa das duas segundas, porque elas decorrem da primeira, que é auto-evidente e não tem mais nada que você precisa dizer; todo o resto decorre disso. Então, eu acredito que nós temos em nossas mãos aqui uma verdade fundamental e definitiva, contra a qual não há refutação. Isso foi notado pelo cara que disse que isso é uma tautologia. Sim, é mesmo, mas é uma tautologia única, no passo que ela não necessita de nenhuma informação entrando, mas uma quantidade infinita de informação sai de dentro dela. Assim, que eu acho que possivelmente esta é, portanto, a causa primeira de tudo no Universo. Grande alegação, mas eu sinto que estou em frente a uma plateia compreensiva.

De onde vem a ideia de Deus? Bem, eu acho que nós temos um ponto de vista distorcido para uma quantidade terrível de coisas, mas vamos tentar ver de onde vem esse nosso ponto de vista. Imagine o ‘homem de antes’. O ‘homem de antes’ é, como todas as outras, uma criatura evoluída; e ele se encontra em um mundo que ele está começando a dominar um pouco: ele começou ser um criador de ferramentas, um modificador de seu ambiente com as ferramentas que ele criou – e essas ferramentas, quando ele as cria, são para fazer mudanças a sua volta. Para dar um exemplo do jeito que o homem opera comparado a outros animais, considere a especiação, que, como nós a conhecemos, tende a ocorrer quando um pequeno grupo de animais se separa do resto do bando – por conta de alguma perturbação geológica, pressão populacional, escassez de alimento ou o que for – e se encontra em um ambiente novo, com talvez alguma coisa diferente acontecendo. Pegue um exemplo bem simples: talvez um bando de animais de repente se encontra em um lugar em que o clima é mais frio. Nós sabemos que em algumas gerações aqueles genes que favorecem um revestimento mais grosso terão vindo à tona e nós chegaremos e descobriremos que os animais agora têm couros mais espessos. O ‘homem de antes’, que é um criador de ferramentas, não tem que fazer isso: ele pode habitar uma gama extraordinariamente ampla de habitats na Terra, da tundra ao Deserto Gobi – ele até consegue viver em Nova York, pelo amor de Deus – e o motivo é que quando ele vai para um ambiente novo ele não precisa esperar por várias gerações; se ele chega num lugar mais frio e vê um animal que tem os genes que favorecem um revestimento mais grosso, ele diz “Eu vou arrancá-lo dele”. Ferramentas nos permitiram pensar intencionalmente, criar coisas e inventar um mundo que se encaixa melhor a nós.

Agora imagine um ‘homem de antes’ inspecionando seus arredores no fim de um dia feliz de criação de ferramentas. Ele olha em volta e vê um mundo que lhe agrada imensamente: atrás dele há montanhas com cavernas – montanhas são ótimas porque você pode se esconder nas cavernas e assim você está fora da chuva e os ursos não podem te pegar; na frente dele há a floresta – ela tem castanhas e frutas e comida deliciosa; tem um riacho passando cheio de água – que é deliciosa de beber, você pode flutuar seus barcos nela e fazer todo tipo de coisa com ela; aqui está o primo Ug e ele pegou um mamute – mamutes são ótimos, você pode comê-los, vestir sua pele, usar seus ossos parar criar armas para caçar outros mamutes. Quer dizer, esse é um mundo ótimo, é fantástico. Mas nosso ‘homem de antes’ tem um momento para refletir e ele pensa para si “é, esse é um mundo interessante em que eu me encontro” e então ele se faz uma pergunta muito traiçoeira, que é completamente sem sentido e falaciosa, mas só aparece por causa da natureza do tipo de pessoa que ele é, que ele evoluiu para ser e que prosperou justamente porque ele pensa desse jeito particular. O ‘homem’, o criador, olha para o mundo e diz “Quem fez isso então?” Quem fez isso? – você pode ver por que é uma pergunta traiçoeira. ‘Homem de antes’ pensa “Bem, já que só existe um tipo de ser que eu conheço que cria coisas, quem quer que tenha criado tudo isso deve, portanto, ser uma versão muito maior, muito mais poderosa – e necessariamente invisíviel. Um de mim e, como eu tendo a ser o mais forte que faz tudo por aqui, ele provavelmente é masculino”. E assim nós temos a ideia de um deus. Em seguida, já que quando criamos coisas temos a intenção de fazer alguma coisa com elas, ‘homem de antes’ se pergunta “Se ele fez isso tudo, pra que ele o fez?”. Agora a verdadeira armadilha salta, porque ‘homem de antes’ está pensando “Esse mundo se encaixa muito bem em mim. Aqui estão todas essas coisas que me apoiam, me alimentam e tomam conta de mim; sim, esse mundo me serve muito bem” e ele chega à conclusão inevitável de que seja lá quem o fez, fez para ele.

Isso é um pouco como se você imaginasse uma poça acordando um dia de manhã e pensando “Esse é um mundo interessante em que me encontro – um buraco interessante em que estou dentro – me serve muito bem, não é mesmo? De fato ele se encaixa impressionantemente bem, deve ter sido feito para me ter dentro dele!”. Essa é uma ideia tão poderosa que conforme o Sol nasce, o ar se aquece e, gradualmente, a poça vai ficando menor e menor, ela ainda está desesperadamente agarrada à noção de que tudo vai ficar bem, porque este mundo foi feito para tê-la nele, foi construído para tê-la aqui; por isso, o momento em que ela desaparece a pega meio de surpresa. Eu acho que isso pode ser algo que nós devemos ficar de olho. Nós todos sabemos que em certo ponto no futuro o Universo vai chegar ao fim e que em outro certo ponto, consideradamente antes disso só que não tão em breve, o Sol vai explodir. Nós achamos que temos tempo suficiente para se preocupar com isso, mas por outro lado isso é uma coisa muito perigosa de se dizer. Vejam aí tudo que deve acontecer no dia 1 de janeiro de 2000 – não vamos fingir que nós não tivemos um aviso de que o século ia acabar! Eu acho que nós precisamos ter uma perspectiva mais ampla sobre quem somos e o que estamos fazendo aqui se nós pretendemos sobreviver em longo prazo.

Existem algumas excentricidades na perspectiva com a qual enxergamos o mundo. O fato de nós vivermos no fundo de um poço gravitacional gigante, na superfície de um planeta coberto de gás girando em volta de uma bola de fogo nuclear há 90 milhões de milhas de distância e achar isso normal é obviamente uma indicação do quão distorcida nossa visão costuma ser, mas nós fizemos várias coisas ao longo da história do pensamento para lentamente corrigir alguns de nossos enganos. Curiosamente, muitas dessas coisas são feitas de areia, então vamos falar sobre as quatro eras da areia.

Com a areia nós fazemos o vidro, com vidro criamos lentes e com lentes, telescópios. Quando os grandes primeiros astrônomos, Copérnico, Galileu e outros viraram seus telescópios para os céus, descobriram que o Universo era um lugar espantosamente diferente do que nós esperávamos e que, longe de o mundo ser a maior parte do Universo e com apenas algumas luzes brilhantes em volta dele, descobriu-se que – e isso levou um longo, longo tempo para sedimentar – o mundo é só uma partícula minúscula rodeando uma pequena bola de fogo, que é uma de milhões e milhões que compõem essa galáxia em particular, que é uma de milhões ou bilhões que compõem o Universo (e agora também estamos perante a possibilidade de que existam bilhões de universos), que aplicou um pouco de corretivo na perspectiva de que o Universo era nosso.

Eu adoro bastante essa noção e, como eu estava discutindo com alguém hoje mais cedo, tem um livro que eu apreciei completamente há pouco tempo por David Deutsch, que é um defensor da visão de múltiplos universos, chamada “A Essência da Realidade”, em que ele explora a noção de um Universo com múltiplos mundos quânticos. Isso veio da famosa dicotomia onda-partícula sobre o comportamento da luz; que você não pode medi-la como uma onda quando ela se comporta como uma onda, ou como uma partícula quando ela se comporta como uma partícula. Como isso acontece? David Deutsch aponta que se você imaginar que nosso Universo é simplesmente uma camada e que há uma infinita multiplicidade de universos se espalhando para todos os lados, isso não só resolve o problema, como o problema simplesmente desaparece. Isso é exatamente como você espera que a luz se comporte nessas circunstâncias. A mecânica quântica alega ser predicada na noção de que o Universo se comporta como se houvesse uma multiplicidade de universos, mas ela de certo modo força nossa credulidade para imaginar que isso realmente seja assim.

Isso nos leva diretamente de volta para Galileu e o Vaticano. Na verdade, o que o Vaticano falou pro Galileu foi “Nós não contestamos suas leituras, nós só contestamos a explicação que você coloca em cima delas. Tudo bem você dizer que os planetas meio que fazem isso, como se eles rodassem e é como se nós fossemos um planeta e esses planetas estariam todos girando em volta do Sol; tudo bem dizer que é como se isso estivesse acontecendo, mas você não tem permissão pra dizer que isso é o que está acontecendo, porque nós temos um monopólio completo em cima da verdade universal e ainda por cima isso simplesmente força nossa credulidade pessoal”. Do mesmo modo, eu acho que a idéia de que existem múltiplos universos atualmente tenciona nossa credulidade, mas pode ser que há mais uma tensão com a qual nós vamos ter que aprender a conviver, assim como tivemos que aprender a viver com um bando delas no passado.

A outra coisa que surge dessa visão do Universo é que ele acaba por ser composto quase totalmente – e preocupantemente – de nada. Pra onde quer que você olhe não há nada, com ocasionais partículas minúsculas de rocha ou luz. Mas, mesmo assim, observando o modo como essas particulazinhas se comportam na enorme vastidão, começamos a adivinhar certos princípios, certas leis, como a gravidade e assim por diante. Então, essa foi, se você preferir, a visão macroscópica do universo, que veio da primeira era da areia.

A próxima era da areia é a microscópica. Nós colocamos lentes de vidro em microscópios e começamos a olhar para essa outra visão do Universo. Então nós começamos a entender que quando nós chegamos ao nível subatômico, o mundo sólido em que vivemos também consiste, de novo preocupantemente, de quase nada; e que quando nós realmente achamos algo ele acaba sendo não realmente algo, mas só a probabilidade de que possa haver alguma coisa ali.

De um jeito ou de outro, este é um Universo profundamente enganador. Onde quer que olhemos, está começando a ficar extremamente preocupante e desapontador para a nossa noção de quem somos: pessoas grandes, sólidas, físicas, vivendo em um Universo que existe quase inteiramente para nós; porque isso simplesmente não é assim. A essa altura nós estamos ainda adivinhando, a partir dessa nova visão, todo tipo de princípios fundamentais, reconhecendo como a gravidade funciona, como forças nucleares fortes e fracas se comportam, reconhecendo a natureza da matéria, das partículas e assim por diante. Mas, mesmo tendo esses fundamentos, nós ainda não somos muito bons em descobrir como eles funcionam, porque os cálculos são na verdade bem traiçoeiras. Por causa disso, nós temos a tendência de chegar a uma visão quase mecânica de como tudo funciona, porque é o melhor que nossas contas podem administrar. Eu não quero de forma alguma menosprezar Newton, porque eu acho que ele foi a primeira pessoa que enxergou que havia princípios em ação que eram diferentes de qualquer coisa que nós vemos à nossa volta. Sua primeira lei do movimento – que alguma coisa permanece em sua posição de repouso ou movimento até que outra força aja em cima dela – é algo que nenhum de nós, vivendo em um poço de gravidade, num invólucro de gás, jamais havia visto, porque tudo que movemos vai parando de novo aos poucos. Somente através de muita observação, percepção, medição e adivinhação dos princípios ocultos no que todos podiam enxergar acontecendo, que ele apareceu com os princípios que nós todos sabemos e reconhecemos com sendo as leis do movimento. Mas mesmo assim ela é, em termos atuais, ainda uma visão de certo modo mecânica do Universo. Como eu disse, eu não quero que isso soe depreciativo de forma alguma, porque suas realizações, como todos nós sabemos, foram absolutamente monumentais, mas ainda meio que não faz sentido pra gente.

Agora, há todo tipo de entidades de que nós também estamos cientes, como partículas, forças, mesas, cadeiras, pedras e assim por diante, que são quase invisíveis para a ciência; quase invisíveis porque a ciência não tem quase nada a dizer sobre elas. Estou falando sobre cachorros, gatos, vacas e uns aos outros. Nós, as coisas vivas, estamos até esse ponto além do alcance de qualquer coisa que a ciência possa realmente dizer, quase além de até mesmo nos reconhecer como coisas que alguém possa esperar que a ciência tenha algo a dizer a respeito.

Eu imagino o Newton sentado, trabalhando, organizando suas leis do movimento e solucionando o modo como o Universo funciona e, com ele, um gato perambulando. A razão pela qual nós não tínhamos nenhuma ideia de como o gato funcionava era porque, até Newton, nós seguíamos o princípio muito simples de que, para ver como as coisas funcionavam, essencialmente nós as desmontávamos. Se você tentar desmontar um gato pra ver como ele funciona, a primeira coisa que você vai ter em suas mãos é um gato que não funciona mais. A vida é um nível de complexidade que está quase fora de nossa visão; está tão longe de algo que nós temos algum meio de entender que nós até a imaginamos como uma classe diferente de objeto, um tipo diverso de matéria; ‘vida’, algo que tinha uma essência misteriosa, era dada por Deus – e essa era a única explicação que nós tínhamos. A bomba cai em 1859 quando Darwin publica “A Origem das Espécies”. Leva um bom tempo até a gente se familiarizar e começar a entender isso, porque não só parece inacreditável e totalmente degradante para a gente, mas é ainda outro choque para o nosso sistema: descobrir que não só não somos o centro do Universo nem somos feitos de nada, mas começamos como um tipo de limo e chegamos onde estamos por via de ser um macaco. Simplesmente não soa bem. Mas nós também não temos nenhuma chance de ver essas coisas em ação. Em certo sentido Darwin foi como Newton, ele foi a primeira pessoa a ver princípios fundamentais, que não eram nem um pouco óbvios, do mundo cotidiano em que ela vivia. Nós tínhamos que pensar bastante pra entender a natureza do que estava acontecendo a nossa volta e não tínhamos nem um exemplo claro, óbvio ou comum de evolução para apontar. Até hoje em dia isso persiste como um problema um pouco traiçoeiro, se você está tentando persuadir alguém que não acredita em toda essa coisa de evolução e quer mostrar a ele um exemplo. Eles são difíceis de achar em termos de observação cotidiana.

Assim, chegamos à terceira era da areia. Nesta era nós descobrimos outra coisa que podemos fazer com areia: silício. Nós fizemos o chip de silício e, de repente, isso abriu para nós um Universo não de partículas ou forças fundamentais, mas das coisas que estavam faltando nesses modelos pra nos dizer como eles funcionam; o que o chip de silício mostrou pra gente foi o processamento. O chip nos permite fazer cálculos extremamente rápidos, para modelar os processos – como se constatou – extremamente simples, que são análogos à vida em termos de simplicidade: iteração, estrutura de repetição, ramificação; o ciclo de retroalimentação* que está no coração de tudo o que você faz em um computador e no coração de tudo o que acontece na evolução – isto é, a fase de saída da geração passada se torna a fase de entrada da próxima. De repente, temos um modelo em funcionamento. Não até certo tempo, porque as primeiras máquinas eram terrivelmente lentas e desajeitadas. Mas gradualmente nós acumulamos um modelo funcional disso que antes nós só podíamos supor ou deduzir – e você tinha que ser bem afiado e bem esclarecido para adivinhar que a evolução estava acontecendo quando ela estava longe de ser óbvia e era, de fato, contra-intuitiva, especialmente para uma espécie orgulhosa como a nossa.

O computador forma uma terceira era de perspectiva, porque subitamente ele nos permite ver como a vida funciona. Agora, esse é um ponto extraordinariamente importante, porque se torna evidente que a vida, que todas as formas de complexidade, não fluem para baixo, fluem para cima e existe toda uma ‘gramática’ que qualquer um que está acostumado a usar computadores agora está familiarizado. Isso significa que evolução não é mais uma coisa peculiar, porque todo mundo que já prestou atenção em como um computador funciona, agora sabe que pedaços iterativos muito, muito simples de código, em que cada linha é extremamente compacta, dão origem a fenômenos extremamente complexos em um computador – e por complexos eu me refiro a um processador de texto tanto quanto eu me refiro ao Tierra ou ao Creatures.

Eu me lembro da primeira vez que eu li um manual de programação, muitos anos atrás. Eu tinha começado a ver computadores lá pra 1983 e eu queria saber um pouco mais sobre eles, então decidi aprender alguma coisa sobre programação. Comprei um manual de C e li os dois primeiros dois ou três capítulos, o que me levou mais ou menos uma semana. No final ele dizia “Parabéns, você escreveu a letra ‘A’ na tela!”. Eu pensei “Bem, eu devo ter entendido alguma coisa mal aqui, porque foi um trabalho enorme pra chegar até aqui, então o que acontece se eu quiser agora escrever um ‘B’?”. O processo de programação, a rapidez e os meios pelo qual uma grande simplicidade dá origem a resultados enormemente complexos, não era parte da nossa gramática mental até aquele ponto. Eles são agora, cada vez mais parte dessa gramática, porque estamos nos acostumando à forma como o computador funciona.

Então, de repente, a evolução deixa de ser tão problemática de se apreender. É mais ou menos assim: imaginem o seguinte cenário. Numa terça-feira, uma pessoa é vista em uma rua de Londres cometendo algum crime. Dois detetives estão investigando, tentando entender o que aconteceu. Um deles é um detetive do século 20 e outro, graças às maravilhas da ficção científica, é um detetive do século 19. O problema é: a pessoa que foi vista claramente e identificada nesta rua de Londres na terça foi vista por outra pessoa, uma testemunha igualmente confiável, em uma rua de Santa Fé na mesma terça. Como isso é possível? O detetive do século 19 só consegue pensar que foi por meio de alguma intervenção mágica. Já o do século 20 pode não saber dizer “Ele pegou o voo tal da British Airlines e depois o voo tal da United Airlines” – ele pode não saber exatamente como ele fez, ou por qual rota ele viajou, mas isso não é um problema. Isso não o incomoda; ele apenas diz “Ele foi pra lá de avião. Eu não sei que voo e pode ser um pouco difícil descobrir, mas não há nenhum mistério em essência”. Nós estamos acostumados com a ideia de viajar. Nós não sabemos se o criminoso voou no BA 178, ou no UA270 ou qualquer outro, mas nós sabemos mais ou menos o que ele fez. Eu suspeito que, conforme nós formos ficando mais e mais familiarizados com o papel que um computador desempenha – e como o computador modela esse processo em que elementos muito simples dão origem a resultados muito complexos – a ideia de que a vida é um fenômeno emergente vai ficar cada vez mais fácil de engolir. Nós podemos nunca saber precisamente que passos a vida deu nos estágios mais iniciais deste planeta, mas isso não é mais um mistério.

Então, o ponto em que chegamos aqui – e apesar da primeira onda de choque da sua chegada ter sido em 1859, é a vinda do computador que demonstra ele de maneira incontestável para nós – é “Existe realmente um Universo que não foi concebido do topo para baixo, mas da base para cima? Complexidade pode emergir de níveis mais baixos de simplicidade?”. Sempre me pareceu bizarro a ideia de Deus como um criador ser considerada explicação suficiente para a complexidade que enxergamos a nossa volta, porque ela simplesmente não explica de onde ele veio. Se nós imaginarmos um criador, isso implica em um projeto e, portanto, cada coisa que ele cria ou é causa de sua concepção é um nível mais simples que ele ou ela; daí, você precisa se perguntar “Qual é o nível acima do criador?”. Existe um modelo peculiar do Universo que tem tartarugas por todo o caminho até embaixo, mas aqui nós temos deuses por todo o caminho até em cima. Realmente não é uma resposta muito boa. Mas uma solução de baixo para cima, por outro lado, que se baseia na tautologia incrivelmente poderosa de que qualquer coisa que acontece, acontece, claramente lhe dá uma resposta muito simples e muito poderosa que não precisa de nenhuma outra explicação.

Mas aqui vem a coisa interessante. Eu disse que eu queria perguntar “Existe um deus artificial?” e aqui é onde eu quero me dirigir à questão de por que a ideia de um deus é tão persuasiva. Eu já expliquei de onde eu sinto que esse tipo de ilusão vem em primeiro lugar; vem de uma falsidade em nossa perspectiva, porque nós não estaríamos levando em conta que somos seres evoluídos, que evoluíram dentro de um cenário particular, dentro de um ambiente particular com uma dada coleção de habilidades e visões do mundo que nos permitiu sobreviver e prosperar com bastante sucesso. Mas parece haver uma ideia ainda mais forte que essa e é a que eu gostaria de propor, de que o lugar no topo da pirâmide que nós previamente achávamos que era de onde tudo fluía, pode não estar realmente vago só porque agora dizemos que o fluxo não parte daí.

Deixe-me explicar o que eu quero dizer com isso. Nós criamos no mundo em que vivemos todo tipo de coisas; mudamos o nosso mundo de várias maneiras diferentes. Isso é bem claro. Nós construímos a sala em que estamos dentro e toda sorte de coisas complexas, como computadores e assim por diante, mas nós também arquitetamos todo tipo de entidades fictícias que são extremamente poderosas. Então dizemos “Essa é uma má ideia, é estúpida – não devíamos simplesmente nos livrar dela?”. Bem, aqui vai outra entidade fictícia: dinheiro. Dinheiro é uma entidade completamente fictícia, mas é muito poderosa no nosso mundo; nós todos temos carteiras, que têm notas dentro delas, mas o que essas notas podem fazer? Você não pode procriá-las, você não pode fritá-las, não pode viver dentro delas, não há nada que você possa fazer de útil com elas, se não trocá-las um com o outro – e assim que nós as trocamos entre nós toda sorte de coisas poderosas acontecem, porque é uma ficção a qual todos nós aderimos. Nós não pensamos se é errado ou certo, bom ou mau; mas acontece que se o dinheiro desaparecesse toda a estrutura cooperativa que nós temos iria implodir, mas se nós desaparecêssemos, o dinheiro iria simplesmente sumir também. Dinheiro não tem nenhum sentido fora de nós mesmo, é algo que nós criamos que tem um efeito poderoso em moldar o mundo, por ser uma coisa que todos nós aceitamos como verdadeira.

Eu gostaria que alguém escrevesse uma história evolutiva da religião, porque o modo como ela se desenvolveu me parece demonstrar todo tipo de estratégias evolutivas. Pense nas corridas armamentistas que acontecem entre dois animais vivendo no mesmo ambiente. Por exemplo, a corrida entre o peixe-boi da Amazônia e um tipo específico de cana que ele come. Quando mais cana o peixe-boi come, mais ela desenvolve sílica em suas células para atacar o dente do peixe-boi e quando mais sílica na cana, mais os dentes do peixe-boi crescem e se fortalecem. Um lado faz uma coisa e o outro contra-ataca. Como sabemos, ao longo da evolução e da história corridas armamentistas são algo que move a evolução do jeito mais poderoso possível; no mundo das ideias você pode ver tipos de coisas similares acontecendo.

Agora, a invenção do método científico e da ciência em si é – tenho certeza que vamos todos concordar – a ideia intelectualmente mais poderosa, a estrutura mais potente para se pensar, investigar, entender e confrontar o mundo ao nosso redor que existe, e que ela se apoia na premissa de que qualquer ideia está aí para ser atacada; se ela suporta o ataque então ela vive para lutar mais um dia, se ela não resiste ao ataque então ela vai abaixo. Religião não parece funcionar assim; ela tem certas ideias em seu centro que nós chamamos de sagradas ou santas ou o que seja. Essa é uma ideia com a qual estamos tão familiarizados, aderindo ou não a ela, que é até meio estranho pensar o que isso realmente significa, porque o que significa é: “Aqui está uma ideia ou uma noção que você não tem permissão pra dizer nada de mal a respeito; você só não tem. Por que não? Porque não!”. Se alguém vota em um partido que você não concorda, você pode discutir sobre isso o quanto quiser; todo mundo vai discutir, mas ninguém vai se sentir ofendido. Se alguém acha que os impostos deviam subir ou descer você está livre pra debater sobre isso, mas por outro lado, se alguém disser: “Eu não posso apertar um interruptor no sábado”, você diz: “Tudo bem, eu respeito isso”. O curioso é que, mesmo enquanto eu digo isso eu estou pensando: “Será que tem um judeu ortodoxo aqui que vai se ofender por eu ter dito isso?”. Mas eu não teria pensado “Pode haver alguém aqui de direita, ou de esquerda, ou alguém que adere a essa ou aquela visão sobre economia” quando eu estava apresentando as outras questões. Eu só penso: “Ok, temos opiniões diferentes”. Mas, no momento em que digo algo que tenha a ver com as crenças (eu vou me arriscar aqui e dizer) irracionais, nós todos nos tornamos ultraprotetores e ficamos na defensiva dizendo: “Não, nós não atacamos isso; essa é uma crença irracional mas não, nós a respeitamos”.

É quase como se fosse, se você pensar lá atrás em termos de evolução animal, um bicho que desenvolve uma carapaça incrível ao ser redor, como uma tartaruga. Esta é uma ótima estratégia de sobrevivência porque nada pode passar por ela. Ou talvez como um peixe venenoso de quem ninguém se aproxima, que então prospera mantendo longe qualquer desafio para o que ele se tornou. No caso de uma ideia, se nós pensarmos “Aqui está uma ideia que é protegida por santidade”, o que isso significa? Por que deve ser assim, enquanto é perfeitamente legítimo defender o partidos dos trabalhadores ou o partido conservador, republicanos ou democratas, esse modelo de economia versus aquele, Macintosh ao invés de Windows? Ter uma opinião sobre como o Universo começou, sobre quem criou o Universo, aí não, isso é sagrado? O que isso significa? Por que nós isolamos isso por outro motivo se não porque nós simplesmente nos acostumamos a fazer assim? Não há nenhuma outra razão, é só mais uma daquelas coisas que vão se infiltrando até virar o que são e que conforme entram em funcionamento ficam muito, muito poderosas. Então, estamos acostumados a não confrontar ideias religiosas, mas é bem interessante o furor que Richard Dawkins cria quando ele faz isso. Todo mundo fica completamente frenético com isso, porque você não pode falar sobre essas coisas. Porém, quando você analisa isso racionalmente, não há nenhum motivo para essas ideias não estarem abertas para debate tanto quando qualquer outra, a não ser porque nós concordamos de algum jeito entre nós que elas não deveriam.

Tem um livro muito interessante – não sei se alguém aqui já leu – chamado “Man on Earth” por um antropólogo que era de Cambridge, chamado John Reader, em que ele descreve o modo como – eu vou me afastar um pouco e contar pra vocês sobre o livro todo. É uma série de estudos em cima de culturas diferentes pelo mundo que se desenvolveram dentro de circunstâncias mais ou menos isoladas, em ilhas ou em vales ou o que seja, por isso é possível tratá-las até certo ponto como casos de laboratório. Você enxerga, por esse motivo, exatamente o grau em que o ambiente e suas circunstâncias imediatas afetaram o jeito que suas culturas surgiram. É uma série de relatos fascinante. O que eu tenho em mente no momento é um que descreve a cultura e economia de Bali, que é uma ilha pequena e superlotada que subsiste a base de arroz. Agora, o arroz é uma comida muito eficiente e você pode cultivar uma quantidade enorme em um espaço relativamente pequeno, mas seu plantio é extremamente trabalhoso e requer uma cooperação enorme e muito precisa entre o povo de lá, especialmente quando você tem uma população grande em uma ilha relativamente pequena que depende de sua colheita. Pessoas de hoje observando o modo como a cultura do arroz funciona em Bali ficam intrigadas, porque ela é intensamente religiosa. A sociedade de Bali é de tal forma que a religião permeia cada um dos aspectos dela e todo mundo naquela cultura é muito, muito definido em termos de quem ele é, qual é seu status qual é seu papel em vida. É tudo definido pela igreja; eles têm calendários muito específicos e uma coleção peculiar de costumes e rituais, que são precisamente definidos e, estranhamente, eles são fantasticamente bons em serem produtivos com seu plantio de arroz. Nos anos 70, pessoas entraram lá e perceberam que a colheita do arroz era determinada pelo calendário do templo. Parecia completamente sem sentido, então eles disseram: “Se livrem de tudo isso, nós podemos ajudar a fazer o plantio ser muito mais produtivo do que vocês estão fazendo neste momento. Usem estes pesticidas, este calendário, façam isso, aquilo e aquilo outro”. Então eles assim fizeram e por dois ou três anos a produção de arroz cresceu enormemente; mas todo o balanceamento predador/presa/peste saiu completamente de ordem. Rapidamente, a colheita de arroz despencou novamente e os balineses disseram: “Dane-se, nós vamos voltar para o calendário do templo!”, eles restabeleceram o que estava lá antes e tudo funcionou de novo perfeitamente. Está tudo muito bem dizer que basear o cultivo do arroz em algo tão irracional e sem sentido quanto religião é estúpido, que eles deviam saber resolver isso de um jeito mais racional que esse. Mas eles podem também dizer para nós “Sua cultura e sociedade funciona a base de dinheiro e isso é uma ficção, então por que vocês não se livram disso e simplesmente cooperam uns com os outros” – nós sabemos que não vai funcionar!

Então, há um sentido sobre o fato de construirmos metassistemas acima de nós para preencher o espaço que antes ocupávamos com uma entidade que era pra ser o criador intencional, o arquiteto (apesar de não existir um) e ainda, justamente por conta de nós (eu não necessariamente me refiro a nós nessa sala, mas nós enquanto espécie) projetarmos e criarmos um e nos deixarmos agir como se houvesse um, todo tipo de coisa começa acontecer que não aconteceria de outra maneira.

Deixe-me tentar ilustrar o que eu quero dizer com outra coisa. Isso é bem especulativo; eu vou andar na corda bamba aqui, porque é uma coisa que eu não sei nem um pouco a respeito, então pense nisso mais como um exercício mental do que uma explicação real sobre algo. Eu quero falar sobre Feng Shui, que é algo de que eu conheço pouco, mas tem havido muitos assuntos a respeito dele recentemente em termos de descobrir como um prédio deve ser arquitetado, construído, posicionado, decorado e assim por diante. Aparentemente, nós precisamos pensar que o prédio está sendo habitado por dragões e olhar pra ele imaginando como um dragão se moveria por lá. Então, se um dragão não ficaria feliz na casa, você tem que colocar um aquário aqui ou uma janela ali. Isso soa como um absurdo completo e absoluto, porque qualquer coisa envolvendo dragões só pode ser bobagem – dragões não existem, então qualquer teoria baseada em como dragões se comportam é tolice. O que essas pessoas bobas estão fazendo, imaginando que dragões podem te falar como construir sua casa? No entanto, ocorre-me que se você desconsiderar por um momento a explicação que é dada pra isso, pode ser que haja algo interessante acontecendo aí, que é mais ou menos o seguinte: nós sabemos, pelos prédios em que já vivemos, trabalhamos, passamos ou ficamos, que alguns são mais confortáveis, mais agradáveis e mais aceitáveis de ser viver dentro que outros. Nós não tivemos nenhum modo de quantificar isso, mas neste século tivemos uma quantidade absurda de arquitetos que pensavam que sabiam como fazer isso, então tivemos a ideia horrível de que a casa é uma máquina para se viver dentro, tivemos Miers van der Rohe e outros colocando ‘troncos de vidro’** e coisas de formato estranho que se supõe formar alguma teoria ou coisa assim. É tudo cuidadosamente construído, mas mesmo assim, seus prédios não são realmente bons para viver dentro. Uma quantidade gigante de teoria foi despejada em cima disso, mas se você sentar pra trabalhar com um arquiteto (e eu já passei por essa experiência estressante, como eu imagino que outras pessoas passaram), quando você estiver tentando descobrir como uma sala deve funcionar, você vai tentar integrar várias coisas sobre luz, ângulos, como pessoas se movem e como elas vivem – e outra quantidade enorme de coisas que você não sabe que acaba ficando de fora. Você não sabe que importância agregar a uma ou outra coisa; você está tentando, muito conscientemente, descobrir algo do qual você não tem muita ideia, mas existe essa e essa outra teoria, esse pouco de prática da engenharia e esse pouco da arquitetura; você não sabe realmente o que fazer com elas. Compare isso a alguém que joga uma bola de críquete em você. Você pode sentar, assisti-la e dizer “Ela está indo a 17 graus”; começar a trabalhar isso em um papel, fazer uns cálculos, etc. Daí, mais ou menos uma semana depois que a bola quase te acertou, você pode ter descoberto onde ela ia cair e como pegá-la. Por outro lado, você pode simplesmente estender suas mãos e deixar a bola cair no meio delas, porque nós temos algumas aptidões que estão embutidas em nós, um pouco abaixo do nível consciente, capaz de fazer vários tipos de integrações complexas de uma variedade fenômenos complexos que, assim, nos permite dizer: “Olha, tem uma bola vindo, pegue-a!”.

O que eu estou sugerindo é que o Feng Shui e uma enorme quantidade de outras coisas são precisamente desse tipo de problema. Há várias coisas que sabemos como fazer, mas não necessariamente sabemos como, nós simplesmente fazemos. Voltemos à questão de como resolver como uma sala ou casa deve ser projetada e, ao invés de passar por todo o trabalho de tentar definir os ângulos e tentar digerir quais princípios autênticos de arquitetura você vai querer separar do que pode ser uma moda arquitetônica passageira, apenas pergunte a si mesmo: “como um dragão viveria aqui?”. Nós estamos acostumados a pensar em criaturas orgânicas; uma criatura dessas pode ser composta de uma complexidade enorme com muitas variáveis que estão além da nossa capacidade de resolução, mas nós sabemos como seres orgânicos vivem. Nós nunca vimos um dragão, mas temos uma ideia de como eles são, então podemos dizer “Bem, se um dragão passasse aqui, ele ficaria preso bem ali e um pouco frustrado aqui porque ele não conseguiria ver aquilo e ele balançaria sua cauda e derrubaria aquele vaso”. Você soluciona como o dragão ficaria feliz aqui e – surpresa! – subitamente tem um lugar que faz sentido para criaturas orgânicas, como nós mesmos, vivermos dentro.

Então, meu argumento é que, conforme nós nos tornamos mais e mais letrados cientificamente, é importante lembrar que as ficções com que nós anteriormente povoamos nosso mundo podem ter alguma função, de que vale a pena tentar entender e preservar seus componentes essenciais, ao invés de jogar o bebê fora com a água do banho; porque, mesmo que não aceitemos as razões que deram para elas estarem aqui em primeiro lugar, pode muito bem ser que haja bons motivos práticos para elas, ou alguma coisa como elas, estarem por aí. Eu suspeito que, conforme nós formos avançando na área de vida digital ou artificial, nós vamos encontrar mais e mais propriedades inesperadas começando a surgir das coisas que vamos presenciar acontecendo; e elas são um paralelo preciso das entidades que nós criamos em volta da gente para formar e moldar nossas vidas e possibilitar que trabalhemos e vivamos juntos. Portanto, eu diria que, embora não haja um deus real, existe um deus artificial e provavelmente deveríamos manter isso em mente. Esse é o ponto do meu debate e vocês agora estão livres para começar a arremessar as cadeiras!

Pergunta: Qual é a quarta era da areia?

Deixe eu me afastar por um momento e falar sobre o modo como nos comunicamos. Tradicionalmente, temos um bocado de jeitos que usamos pra comunicar uns com os outros. Um deles é um-para-um; falamos entre nós, temos uma conversa. Outro é um-para-muitos, que é o que estamos fazendo no momento, ou alguém podia se levantar e cantar uma música, ou anunciar que temos que ir pra guerra. Depois temos muitos-para-um; nós temos uma versão bem remendada, desajeitada que não funciona muito bem que chamamos de democracia, mas em um estágio mais primário eu me levantaria e diria: “Ok, vamos pra guerra” e alguns poderiam gritar de volta: “Não, não vamos!” – e em seguida teríamos uma comunicação de muitos-para-muitos no bate-boca que se instalaria logo após!

Neste século (e no anterior) modelamos as comunicações um-para-um com o telefone, que eu acho que todos nós reconhecemos. Nós temos também um-para-muitos, – caramba, como temos um bocado dessas; radiodifusão, publicações, jornalismo, etc. – nós temos informação despejada em cima da gente por todos os cantos e é bem indiscriminado o jeito que ela se espalha. É curioso, mas não precisamos voltar muito na história para achar um ponto em que toda informação que chegava até a gente era relevante e, desse modo, qualquer coisa que acontecesse, qualquer notícia – fosse sobre algo que aconteceu com a gente, no vizinho, na vila vizinha, dentro da nossa fronteira ou do nosso horizonte – acontecia no nosso mundo e, se reagíssemos, o mundo reagia de volta. Era tudo relevante para nós, então, por exemplo, se alguém tivesse um acidente horrível a gente podia se juntar em volta e ajudar de fato. Hoje em dia, por conta da infinidade de comunicações um-para-muitos que temos, se um avião cai na Índia nós podemos ficar bem aflitos com isso, mas nossa ansiedade não tem nenhum impacto. Nós ainda não somos muito bons em distinguir entre uma emergência terrível que aconteceu há um mundo de distância e algo que aconteceu com alguém na esquina do lado. A gente não consegue diferenciar as duas, até por isso ficamos muito chateados com algo que aconteceu com alguém numa novela que vem de Hollywood e talvez menos preocupados quando aconteceu com a nossa irmã. Nós todos nos tornamos confusos e desligados e não é espantoso nos sentirmos bastante estressados e alienados do mundo, porque o mundo nos afeta, mas nós não afetamos o mundo. Em seguida temos muitos-para-um; nós temos isso, mas não muito bem ainda e não há muito disso por aí. Essencialmente, nossos sistemas democráticos são um modelo disso e apesar de não serem muito bons, eles vão melhorar muito ainda.

Mas o quarto, o muitos-para-muitos, nós não tínhamos de nenhum jeito antes da chegada da Internet, que funciona, evidentemente, por fibra ótica. É a comunicação entre todos nós que forma a quarta era da areia. Pegue o que eu disse antes sobre o mundo não reagir à gente quando reagimos a ele; eu me lembro da primeira vez, anos atrás, que eu comecei a levar a Internet a sério. Foi uma coisa bem boba. Tinha um cara, um estudante de pesquisa da computação no Carnegie Mellon, que gostava de beber Dr Pepper Light. Havia uma máquina de refrigerante há alguns andares dele, onde ele costumava ir para pegar sua Dr Pepper, mas a máquina vivia sem estoque, então ele perdia várias viagens. Eventualmente, ele percebeu: “Espera aí, tem um chip lá dentro, eu estou em um computador e tem uma rede por todo o prédio. Então por que eu não coloco a máquina de refrigerante na rede, para que eu possa consultá-la do meu terminal sempre que eu quiser, pra saber se eu vou perder a viagem ou não?” Assim ele conectou a máquina na rede local, mas esta rede era parte da Internet – então, subitamente, qualquer pessoa no mundo podia ver o que estava acontecendo na máquina. Isso pode não ser informação vital, mas acabou sendo curiosamente fascinante; todo mundo sabia o que se passava ali. Começou a progredir, porque o chip não dizia simplesmente “O compartimento de Dr Pepper Light está vazio”, mas havia todo o tipo informação; ela dizia “Tem 7 Cocas e 3 Cocas Diet, a temperatura de armazenamento é tal e a última vez que foram carregadas foi tal”. Tinha bastante informação ali, e tinha uma realmente fabulosa: acontecia que, se alguém tivesse colocado 50 centavos lá e não apertado o botão, ou seja, se a máquina estivesse ‘grávida’, então você podia, do seu terminal de computador onde quer que você estivesse no mundo, logar na máquina e derrubar a lata! Alguém podia estar andando pelo corredor e de repente “Bam!” – uma lata de Coca-Cola! O que causou isso? – certamente alguém há 5000 quilômetros! Era uma história bem boba, mas fascinante, e o que ela me dizia é que essa era a primeira vez que você podia atingir o mundo de volta. Pode não ser incrivelmente importante que de 5000 quilômetros de distância você possa chegar em um corredor de universidade e ejetar uma lata de Coca-Cola, mas é o primeiro tiro na guerra de nos trazer um jeito completamente novo de se comunicar. Então essa, eu acho, é a quarta era da areia.

* Termos da computação, no original: “iteration, looping, branching, the feedback loop”
** “Giant glass-stump” foi como o prínciple Charles chamou um projeto de arranha-céu no centro de Londres, de acordo com essa notícia de 1985.

FONTE: http://bulevoador.com.br/2012/05/35399/

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