Publicado por: Conselheiro Fnord | 24/04/2012

O QUE É O DISCORDIANISMO? (Parte 1)


Etimologia e história

Discordianismo é por vezes também chamado de Erisianismo, pois a nomenclatura deriva de Éris ou Discórdia, deusa grega do Caos.

O discordianismo é uma religião livre fundada nos anos 60 por Malaclypse, The Younger (ou Mal-2 para os mais chegados) e por Lord Omar. Bom, tirando os pseudônimos, fica Kerry Thornley e Greg Hill.

Simbologia, Mitologia, Literatura e Filosofia

O principal livro discordiano chama-se “Princípia Discórdia”. Em inglês pode ser lido gratuitamente nesse site, mas o Rev. Ibrahim César teve a brilhante e maravilhosa idéia de traduzi-lo para o português, e, é claro, torná-lo
disponível para o público em geral.

O discordianismo pode ser explicado brevemente como o Zen para ocidentais. Bom, parece uma piada de mau gosto, uma vez que o Zen é bem difícil de se definir. Então vamos aos poucos: para o discordianismo, o humor é fundamental. É um modo definitivamente muito bom de se encontrar a iluminação interior do Zen.

Outra idéia fundamental do discordianismo é o Caos: ele é indefinível, mas basicamente o temos como o componente fundamental da existência. Afinal de contas, o que vemos são agrupamentos atômicos, mas se formos profundos o suficiente vamos descobrir que somos grupos de átomos que vivem num mundo bem caótico. Ao mesmo tempo, o discordianismo afirma que padrões são apenas organizações feitas pelo cérebro humano, e que não existem objetivamente.

Cada modo de ver o mundo, cada crença, ideologia, cada conceito não-material (abstrato, diga-se) é apenas um padrão para enxergar uma realidade simplesmente caótica. A vida e a matéria são caóticas e a existência é um absurdo? Talvez, mas o principal é que quando padronizamos o mundo destruímos a espontaneidade da realidade.

O discordianismo afirma (e atenção que esse pode ser um ensinamento trivial, mas na verdade é muito profundo) que tudo é verdadeiro, falso e irrelevante em algum sentido. Na verdade, a frase é mais longa que isso. A versão estendida é: Tudo é verdadeiro em algum sentido, falso em outro sentido, irrelevante em outro sentido, verdadeiro e falso em algum sentido, verdadeiro e irrelevante em algum sentido, falso e irrelevante em outro sentido e verdadeiro, falso e irrelevante em algum outro sentido. Esse ensinamento tem conseqüências variadas, mas não é o caso de nos aprofundarmos nisso agora.

Logo, o erisianismo é definido como uma meta crença, pois é antes um modo de ver as crenças e as ideologias, de forma a fazer com que elas percam sua validade absoluta. Isso (olha que surpreendente) também possui diversas conseqüências, mas (adivinha) não é o caso de discutirmos isso agora.

Conseqüências práticas do discordianismo

O anátema, no melhor dos sentidos, é uma reprovação energética (Dicionário Aurélio). Uma brincadeira boa de se fazer é inventar novas palavras ou novos significados para palavras e expressões antigas – então vamos fingir que um anátema seja, por exemplo, uma contradição. É porque eu gosto da palavra anátema, então vamos fingir que ela sirva aos propósitos dessa explanação. Se você for purista, poxa, é só uma brincadeira. Só um pouquinho, vai, depois eu devolvo o significado da palavra.

Todos os humanos têm uma tendência a serem inertes – na realidade, se eu precisasse escolher uma característica que tivesse a cara do universo eu diria “inércia”, não só pela vida humana, mas pela própria forma como as coisas funcionam. Richard Dawkins em seu livro “O Gene Egoísta” explica que uma coisa instável procura estabilidade – procura no sentido normal e não-consciente da coisa. A inércia faz com que qualquer sistema instável tenda a se estabilizar. Surpreendente seria se não fosse assim.

De qualquer forma, continuando. Os humanos têm a tendência a procurar pela segurança e estabilidade – eu usaria a expressão “está no sangue”, mas é melhor “está no gene”.

Pense numa cama quente. Quentinha e confortável. Se estiver quente aí de onde você lê esse texto, imagine-se num inverno rigoroso. Uma cama, um bom filme, cobertores, barulhinho de chuva, chocolates quentes ou massas caseiras. Um bom e delicioso sono, recheado de sonhos maravilhosos.

Isso não é bom? O que os humanos procuram é estabilidade, segurança. Toda a situação descrita acima é boa, não? É algo gostoso. Quando passamos por isso, o fundo de nossas mentes grita. “Eu quero ficar aqui pra sempre.”. É assim com todos os momentos mágicos; a força de expressão mais inútil e impossível de todas – eu quero que isso dure pra sempre.

A questão é que a nossa vida é assim, à procura de segurança, tanto no plano material e pragmático quanto no ideológico. Queremos uma ideologia que “forme a nossa mente”. Equilibre nossa vida e seja coerente. Queremos encontrar um caminho a seguir, um plano de vôo para nossas vidas. Quando usamos a razão pra isso, encontramos boas razões pra ser de um modo e boas razões pra ser de outro. Usando a ética, a moral ou qualquer outro instrumento, escolhe-se um e em geral isto se torna nossa “identidade”, o modo como somos e como agimos. E nós passamos a considerar isso correto, não só pelos instrumentos que usamos para atingir essa identidade, mas apenas porque ela possui boas razões de ser (como qualquer outra).

Procuramos sempre a estabilidade. Entretanto, não espere encontrá-la no discordianismo.

Ao reconhecer que a razão é muito útil para alcançarmos algum tipo de coerência no estudo da existência material, mas nada útil para a existência subjetiva, qualquer identidade calcada na razão perde o sentido. Como se pode viver assim? Bem, existem outros valores na vida, e o que o discordianismo diz pra você é: abstenha-se da razão e encontre dentro de você seus próprios valores. O humor é uma boa dica.

Nietzsche em seu livro “Nascimento da Tragédia” afirma que é preciso ir contra a natureza para forçá-la a revelar seus segredos. É preciso de anátemas na vida para se descobrir; é preciso forçar-se aos extremos para descobrir a própria essência – ou para libertar-se dela. Se você é organizado, procure a desorganização ao máximo. Se você é tímido, procure a exposição e a extroversão (o Word disse que essa palavra não existe, mas tudo bem).

Nietzsche conta que na mitologia persa, um bruxo só poderia nascer de um incesto – ou seja, o crime contra a natureza revela seus segredos. Seja contra sua natureza em ambos os sentidos; contra sua essência enquanto indivíduo e contra sua essência enquanto humano que quer se conformar. Dessa forma, você não encontrará paz, porém encontrará a sua vontade, o seu desejo, o caos necessário para transformá-lo no que você quiser.

Resumindo, o discordianismo não é uma filosofia para quem procura por paz – se você não está em dúvida, fique em dúvida

. O discordianismo é uma filosofia de diversão, principalmente com os caminhos e descaminhos da razão, e uma filosofia onde as incertezas ganham sentido e as emoções são valorizadas. É uma filosofia de superação.

FONTE:

Tudismocroned

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Responses

  1. […] https://discordianismo.wordpress.com/2012/04/24/o-que-e-o-discordianismo-parte-1/ […]

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  2. “Ao mesmo tempo, o discordianismo afirma que padrões são apenas organizações feitas pelo cérebro humano, e que não existem objetivamente.”

    Isso é incompatível com a ciência. É também o problema da indução de david hume.

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